Expatriados devem ter atenção com política da empresa

Pesquisa aponta que apenas 22% das companhias consideram bom o processo de repatriação dos profissionais

Patrícia Lucena, iG São Paulo | 07/04/2011 05:58

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Os recentes acontecimentos no Egito, na Líbia e no Japão obrigaram muitas empresas a repatriarem seus funcionários, com a ameaça à segurança. Com o crescimento econômico do Brasil, diversas companhias têm enviado seus colaboradores para o exterior, embora nem todas possuem uma política que garanta uma boa mobilidade global aos profissionais. Morar fora agrega conhecimentos tanto profissionais como culturais. Sem dúvida, é um aprendizado. Mas, é preciso prestar atenção nas condições oferecidas pelas empresas.

Paulo Abreu, diretor sênior de finanças na Philips Lighting da América Latina, ficou oito anos fora do Brasil e conta que seu processo de expatriação passou por fases importantes, tanto do lado pessoal quanto profissional.

Foto: EFE

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“Quando fui convidado pela empresa a morar fora durante um tempo, meu primeiro passo foi conversar com minha família e mostrar o quanto essa oportunidade seria importante para mim e para eles”, relembra Abreu. A primeira preocupação veio com os filhos, conta ele, porque o ano letivo desses países é diferente do Brasil, o que poderia significar a necessidade de recomeçar o que haviam iniciado no Brasil. Outra seria com o trabalho da esposa, que já contava com 15 anos de carreira. “Mas ela foi compreensiva e topou o desafio dando preferência à minha carreira.”

Segundo Abreu, os primeiros seis meses são mais críticos para a família. É a fase de adaptação. “Tive que dar muita atenção para eles, porque se não se adaptassem isso afetaria indiretamente meu trabalho. Consequentemente, teria que voltar ao Brasil antes mesmo de um ano.”

Contratos

Cristina Fernandez, gerente de desenvolvimento de novos negócios da Career Center, afirma que é essencial que as regras estabelecidas no contrato estejam claras. “Muitos se empolgam pelo fato de trabalhar fora e acabam se esquecendo dos riscos, caso tenham que voltar imediatamente ao país de origem.”

Há dois tipos de contrato de expatriação: global e local. No primeiro, o profissional seguirá as regras e políticas gerais que valem em todos os lugares, mas com algumas normas específicas para cada país. Já no local, a pessoa deverá obedecer às leis do próprio país de destino.

Normalmente, os contratos são feitos por dois ou três anos. Cristina acredita que, durante esse tempo, é importante que o profissional mantenha contato com a área de recursos humanos da empresa no país de origem, com seu gestor e pessoas que têm influência na sua empresa. “O networking deve estar sempre ativo, pois ele nunca sabe quando terá que voltar. Por isso, é fundamental que a pessoa faça um planejamento da sua carreira pelo menos um ano antes da sua volta ao país.”

Abreu conta que seu contrato de trabalho no Brasil foi suspenso durante os oito anos, mas a empresa continuou depositando o FGTS no exterior como parte dos ingressos mensais e o INSS continuou sendo pago no Brasil. “Além disso, me ofereceram um contrato de que fariam o possível para me recolocar no mercado, caso eu tivesse que retornar ao País.” Abreu também precisou de cuidados com seu imposto de renda de saída definitiva do País, aluguel do apartamento e venda do carro.

Repatriação

Quando chegou a hora de voltar ao Brasil, Abreu teve a mesma preocupação com a família e com os filhos. “Em nossos oito anos fora, meus dois filhos foram educados em escola internacional, onde o inglês é o idioma predominante. Quando voltam ao Brasil, ou você continua com a escola internacional, que é caríssima - e muitas vezes inviável do ponto de vista financeiro -, ou você os matricula em uma escola brasileira. Considerando que eles não escreviam e pouco podiam ler em português, a adaptação deles no retorno foi muito difícil.”

Em relação à parte profissional, de certa ele considera que a volta foi mais tranquila – é comum nesses casos o profissional voltar com uma promoção e novos desafios. “Passei a ser mais requisitado pelo mercado justamente por esta experiência única.”

Um estudo realizado pela empresa de auditoria e consultoria Ernst & Young indica que 22% das companhias consideram bom seu processo de repatriação, 33% acreditam ser satisfatório e 45% pretendem fazer melhorias no processo.

O profissional que concorda em passar dois ou três anos fora pela empresa deve ter em mente que nem sempre poderá ser recolocado na mesma função quando for repatriado. Por outro lado, há também a preocupação por parte da empresa em reter esses talentos. Isso porque a pessoa irá voltar com muitas competências globais, ficando mais visado no mercado.

A pesquisa também mostra que 38% dos repatriados voltam para um novo cargo dentro da empresa. Já 23% dos funcionários mudam novamente de país durante os dois primeiros anos de repatriação. E 12% deles deixam a companhia, o que acarreta em uma perda considerável de investimento e de conhecimento para a empresa, já que esse funcionário poderia agregar valor em sua área de trabalho.

Se a empresa tem uma boa política de repatriação, o profissional volta sem grandes problemas. Entretanto, Cristina ressalta que há um grande choque cultural na transição. “Quando ele vai para outro país, seu nível econômico geralmente fica mais alto, pois recebe da empresa serviços que no seu próprio país não precisava. Já quando ele volta, essas ‘regalias’ acabam. Por isso, ele precisará se readaptar ao local e a forma de viver.”

Ação em emergências

Quando ocorrem desastres naturais, como no Japão, ou distúrbios sociais, como no Egito e na Líbia, a repatriação precisa acontecer em muito pouco tempo. Por isso, é essencial que a empresa no país de origem garanta sua volta. “A pessoa irá analisar juntamente com a companhia para qual está trabalhando e ver qual a melhor forma de abordar o problema. Normalmente, há uma cláusula no contrato que determina a responsabilidade das organizações nesses casos”, destaca Cristina.

Além disso, é importante que a documentação brasileira do profissional esteja em ordem. Cristina afirma que em casos como esses da Líbia e do Japão, a embaixada sempre é envolvida na ajuda. “Ele precisa estar em conexão com esses órgãos para analisar quais são os procedimentos.”
 

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    • Fonte: Thomson Reuters
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