Com a crise, programas de ações devem ganhar mais espaço nas companhias para compensar performance dos funcionários

Nos últimos dois anos, o aquecimento do mercado levou os executivos a obterem ganhos expressivos. Boa parte relativa a bônus de curto prazo, que está atrelado ao desempenho individual no cumprimento de metas estipuladas pelas companhias. Para se ter uma idéia, dados da última pesquisa feita pela Watson Wyatt ¿ consultoria especializada em RH e remuneração ¿ indicam um aumento de 15% no pagamento de salários extras no País. O levantamento foi feito no ano passado e envolveu 207 empresas brasileiras e estrangeiras.

Números que refletiam os resultados financeiros e operacionais favoráveis. Presidentes de grandes empresas, por exemplo, chegaram a receber seis salários a mais em maio de 2008 referentes aos bônus ligados a performance do profissional em 2007. Entretanto, com o estouro da crise financeira mundial no final de setembro, esse cenário de bonança pode sentir reflexos e alterar não apenas os ganhos de curto prazo.

As empresas ainda não avaliaram o que vão fazer e estão estudando que estratégia adotar para evitar que seus profissionais sejam prejudicados com os ganhos relativos ao seu desempenho, explica Cyro Magalhães, diretor de capital humano da Watson no Brasil. Mas certamente todos serão, de uma forma ou outra, afetados. Leia abaixo trechos da entrevista exclusiva concedida por ele ao iG Empregos :


iG - Como a crise deve afetar o pagamento de bônus pelas empresas no País?
Cyro Magalhães ¿
Vejo muita especulação sobre como a remuneração vai ser atingida pela crise. Mas é fato que as organizações precisam reavaliar o vínculo dos indicadores de performance aos riscos de negócio nesse novo cenário. Não dá apenas para concentrar foco nos ganhos de curto prazo. Mesmo porque, eles devem cair bastante agora.

iG ¿ Então, o senhor acredita que as companhias passarão a direcionar seus esforços nos programas de ações?
Magalhães ¿
Acredito que essa é uma saída. Em meio a indefinições, o melhor caminho é dar atenção aos planos de incentivo de longo prazo. Mesmo no caso das stock options (opções de compra de ações da empresa por um preço prefixado). Hoje, as ações das companhias estão em baixa, mas depois do furacão elas devem voltar a se recuperar e o funcionário terá sua recompensa. Nenhuma crise é para sempre e, portanto, os ganhos futuros podem ser assegurados. Ao contrário dos bônus.   

iG ¿ E o que as empresas podem fazer?
Magalhães ¿
As empresas precisam ficar atentas para não sentir reflexos no grau de comprometimento de suas equipes. Quando os bônus caem, é natural que haja uma queda na performance em busca de resultados mais imediatos. Por isso, acredito que muitas vão tentar encontrar uma alternativa para resolver a questão.

iG ¿ Isso deve acontecer quando?
Magalhães - Acho meio complicado que qualquer atitude seja tomada no meio da crise. No entanto, vai ser no curto prazo. Ainda mais quando, nesse momento, quem tem ações da companhia e pretende resgatá-las verá que elas valem bem abaixo do que quando foram compradas. 

iG ¿ Na sua opinião, o que deve mudar daqui para frente nos programas de remuneração?
Magalhães ¿
Apesar dos grandes ganhos com essa parte que chamamos de variável (bônus e ações), no Brasil eles não têm tanto peso no pacote de remuneração dos executivos quanto lá fora. Se nos Estados Unidos, representam entre 70% e 80% do salário total, aqui não passam de 50%. Embora o cenário lá fora seja diferente daqui, as multinacionais instaladas no País devem replicar as mudanças que irão promover nas matrizes. Ou seja, diante de um quadro recessivo, as estratégias associadas ao risco devem ser substituídas por algo mais consistente. Os sistemas de bonificações deixarão de imperar por ora. E os executivos cobrados ¿ e remunerados ¿ por ações de médio e longo prazo.

iG - Agora, em relação às empresas brasileiras que adotaram planos mais agressivos de bônus em comparação às múltis? 
Magalhães ¿
Quando novos patamares forem estabelecidos pelas multinacionais, as companhias nacionais devem rever esse posicionamento. Pagar pelo risco é atirar no escuro. Ninguém sabe o que vai acontecer nem como o mercado vai se comportar. Então, essa política agressiva de metas atrelada ao recebimento de bônus não fará tanto sentido enquanto a crise durar.

iG - O senhor acredita que aquele quadro visto até então de salários inflacionados por conta do aquecimento de mercado deve ser revertido?
Magalhães -
Eu acho que voltaremos a ter um equilíbrio nesse cenário. Antes, em razão de economia em alta, a disputa por talentos se acirrou, provocando esse crescimento na remuneração. Como há um momento de incertezas, muita gente não vai querer sair de seus empregos e as companhias não precisarão tanto elevar as propostas para tirá-los de seus lugares.

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