Saiba quando trabalhar de graça é bom ou ruim para a carreira

Por Taís Laporta - iG São Paulo |

compartilhe

Tamanho do texto

Quem trabalha sem receber um tostão não se valoriza ou tem mais chances de sucesso? Veja o que pensam os profissionais

Aos 36 anos, Luís Delcides trabalhou por cinco meses para um site e uma revista esportiva sem receber um centavo em troca. “Pagava do meu bolso os custos do transporte e almoço”, conta. Depois, ajudou a lançar um jornal comunitário, também sem remuneração. Trabalhar de graça, para ele, não é se desvalorizar. “É um aprendizado. Ajudou a incrementar meu portfólio e apresento essas experiências para possíveis clientes”.

Divulgação
Stéfanie Singer é contrária ao trabalho gratuito

Com opinião oposta, a cantora Stefanie Singer, de 26 anos, recusou todas as propostas que recebeu para se apresentar sem ganhar um tostão em bares, restaurantes e casamentos. “Considero indecoroso esse tipo de proposta. Me recuso a trabalhar sem receber, mesmo sob alegações de divulgação do trabalho, como é comum na minha área”.

LEIA MAIS: 40 carreiras que pagarão menos impostos com o Supersimples

Stefanie só abre exceção para eventos filantrópicos ou quando encarava o canto de forma recreativa, antes de se profissionalizar. "O músico influencia diretamente o sucesso ou o fracasso de um evento. Por que não remunerá-lo? A remuneração traz dignidade ao profissional”, defende.

Considero indecoroso esse tipo de proposta. Me recuso a trabalhar sem receber, mesmo sob alegações de divulgação do trabalho" – Stéfanie Singer, 26 anos, cantora

Antes de tornar-se esteticista animal, Ana Magal foi jornalista, aos 33 anos. Trabalhou de graça por 14 meses para um portal de notícias que propunha ajudar alunos de comunicação a aprenderem o ofício. “O dono vivia prometendo que conseguiria patrocínio para que fôssemos remunerados, e nada. Comecei como repórter, depois passei para editora assistente e quando saí, era diretora de conteúdo. Nunca recebi um centavo”.

Apesar disso, Ana reconhece que um estágio remunerado não teria a ajudado tanto. “Mas hoje não trabalharia mais de graça. Apesar de ensinar, infelizmente não paga as contas. Depois de um ano cheia de dívidas, aprendi que se quiserem meu conhecimento, terão que pagar por ele”, diz.

LEIA TAMBÉM: Conheça 10 carreiras ameaçadas de extinção

O coordenador de mídia digital Jurandir Gustavo Souza Nunes não se arrepende de ter trabalhado de graça para uma startup de marketing digital. “Como eu tinha pouca experiência, o trabalho não remunerado foi ótimo para criar um portfólio, expandir o network e agregar experiência". Segundo ele, o trabalho o ajudou a ser recomendado para jobs pagos.

Trabalho para entidades é mais bem visto do que para empresas

Na opinião do especialista em marketing pessoal, Marcos Souza, as empresas valorizam muito candidatos que trabalharam sem remuneração, desde que para entidades sem fins lucrativos. “O trabalho assistencial é bem visto, muito valorizado e pode abrir portas para o jovem sem experiência. Ter feito um trabalho voluntário é um diferencial em entrevistas de emprego”, acredita.

Marcos condena, contudo, o trabalho não remunerado para empresas com fins lucrativos, especialmente quando há uma relação de subordinação, com chefia. “O profissional tem de se valorizar”, diz. Mas a situação pode ser diferente quando se trata de um trabalho freelancer ou um serviço paralelo. “Se o profissional tiver expectativa de um retorno, como fechar um contrato, obter clientes ou iniciar um projeto como empreendedor, aí pode valer a pena”. 

Divulgação
Jurandir: impulso para trabalhos pagos

Há trabalhos não remunerados em que a troca é vantajosa para os dois lados, acredita o diretor presidente da Great Group, especializada em consultoria e gestão empresarial, Julio Amorim. É o caso de um palestrante que concorde em se apresentar em uma empresa sem condições de pagar, mas que o evento dê visibilidade e melhore o currículo do profissional.

O trabalho não remunerado foi ótimo para criar um portfólio, expandir o network e agregar experiência" – Jurandir Nunes, coordenador de mídia digital

Um iniciante que passe uma temporada no Vale do Silício , bancando um estágio não remunerado em empresas de tecnologia, voltará com experiência internacional e isso pode gerar uma recompensa interessante, exemplifica. “Mas se o trabalho não trouxer resultado, não vejo como boa coisa”, diz Amorim. 

Se trabalhar de graça para uma empresa, deixe a troca bem clara. Mas trabalhos filantrópicos, ligados a responsabilidade social, têm um apelo muito mais forte para a carreira, em sua visão.

Para Amorim, a empresa que convoca profissionais sem remunerá-los corre um risco enorme, além de descumprir a legislação. “A pessoa pode não dar o resultado esperado, e não há como exigir dela. Não existe segurança alguma nessa relação”, acredita.

Profissionais pagos são vistos como melhores

Divulgação
Maurício Sampaio

Maurício Sampaio, fundador do Instituto MS de Coaching de Carreira, fez diversos trabalhos gratuitos até poder cobrar caro por palestras e treinamentos.

“Meu único conselho é que se estabeleça um prazo para isso. Por quanto tempo pretende-se trabalhar de graça? Qual o plano? Geralmente, em uma grande organização, esse tipo de proposta não existe. É preciso tomar muito cuidado em quais condições esse plano pode funcionar”.

Apesar de ter trabalhado sem receber, Sampaio não considera ideal começar a carreira dessa forma. “O ideal é ser remunerado, mas o plano é de cada pessoa e talvez esse seja o lado positivo. Por outro lado, não espere que esse fato possa mobilizar outras empresas. Muito pelo contrário".

LEIA AINDA: 5 sinais de que você está na profissão errada

O coach de carreira acredita que profissionais pagos são vistos como melhores, em sua opinião. “Por várias vezes já escutei alguém falar o valor da consulta de um médico e dizer que ele era muito bom, mesmo sem nunca ter agendado uma consulta”.

 Conheça as 10 profissões com mais escassez de mão de obra:

Engenheiro: Brasil tem uma carência histórica na área de engenharia, formando, anualmente, apenas 44 mil engenheiros, contra 150 mil dos Estados Unidos. Foto: Thinkstock/Getty ImagesContador: jovens teriam perdido interesse no setor por seu caráter 'operacional' e não 'estratégico'. Foto: Thinkstock/Getty ImagesProfissionais de TI: número de profissionais formados na área de tecnologia da informação não atende à demanda crescente das empresas. Foto: Thinkstock/Getty ImagesProfissionais de saúde: novas tecnologias passaram a exigir mudanças e adaptações no comportamento dos funcionários. Foto: Thinkstock/Getty ImagesProfissionais de RH: necessidade de reestruturação das empresas, especialmente em um momento de esfriamento da atividade econômica no país, aumenta a exigência sobre os Recursos Humanos. Foto: Thinkstock/Getty ImagesSecretária: a profissão exige apenas nível médio, o que não interessa a jovens que aspiram a um diploma universitário. Foto: ThinkstockMotorista: muitos decidiram deixar a profissão em busca de carreiras mais bem remuneradas. Foto: DivulgaçãoTécnico: escassez desse tipo de profissional se concentra nas áreas de edificação, eletricidade e automação. Foto: Danilo Chamas / Fotomontagem iG sobre SXC/Flickr CCOperário: cada vez menos pessoas, portanto, querem dedicar-se ao trabalho braçal.. Foto: Divulgação


Leia tudo sobre: carreirastrabalho não remuneradosaláriodinheiro

compartilhe

Tamanho do texto

notícias relacionadas