O capitalismo brasileiro vai, aos poucos, mudando de perfil. Em três anos, caiu pela metade a concentração de capital nas empresas abertas brasileiras listadas no Novo Mercado da Bovespa - segmento da bolsa na qual as companhias têm de seguir regras mais rígidas de governança.

Até 2004, a média de concentração do capital nas mãos de um único acionista era de 70%. De lá para cá, esse índice veio caindo e, hoje, o maior acionista das empresas listadas no Novo Mercado detém, em média, 36,39% das ações, segundo estudo da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV Direito).

Essa dispersão do capital é uma característica bastante presente em países onde o mercado de ações é bem desenvolvido, caso dos EUA e Reino Unido, e mostra uma evolução do sistema de controle familiar para um controle mais profissional. Um exemplo é a cervejaria americana Anheuser-Busch, dona da marca Budweiser e adquirida na semana passada pela belgo-brasileira InBev. A empresa tem o capital bem pulverizado: o maior acionista, a holding Berkshire Hathaway, do investidor Warren Buffett, não detém mais do que 5,5% das ações. A família Busch, fundadora da companhia há 150 anos, possui apenas 3,5% do capital.

No Brasil, a pioneira a caminhar nessa direção foi a varejista Lojas Renner. A companhia era administrada pela família Renner até 1967, quando abriu seu capital. Em 1998, 97% das ações foram adquiridas pela J. C. Penney, rede americana de lojas de departamento. Após sete anos como acionista controlador, o grupo optou por encerrar suas operações no Brasil e fez a oferta pública das ações - o que transformou totalmente a estrutura acionária da empresa.

"Talvez sejamos a única empresa no Brasil com o capital efetivamente pulverizado, sem a presença de um acionista ou holding controladora", diz José Carlos Hruby, diretor de relações com investidores da Renner. São cerca de 8 mil acionistas, 80% deles estrangeiros. Os dois maiores acionistas, os fundos Sloane Robinson LLP e T. Rowe Inc., detêm respectivamente 5,52% e 5,65% das ações. O valor de mercado da empresa é estimado em R$ 3,8 bilhões.

Estudo

O estudo da FGV Direito analisou 339 empresas brasileiras com ações negociadas na Bovespa. Das 92 empresas listadas no Novo Mercado, 65 não têm um controlador único - dado inédito na história do mercado de ações brasileiro. Uma empresa é considerada como tendo um acionista controlador quando um único acionista (ou grupo deles) detém mais de 50% do capital votante.

"O grande número de aberturas de capital (IPOs) entre 2004 e 2007 contribuiu para essa desconcentração do capital nas empresas listadas no Novo Mercado", diz a autora do estudo, Érica Gorga, professora da FGV Direito e da Cornell University, de Nova York. Em 2004, apenas sete companhias listavam suas ações no segmento. Ao final de 2007, eram 92 - a maioria (84,8%) estreante na bolsa.

É o caso da construtora Gafisa. Nos últimos dois anos, a companhia passou por dois IPOs - em fevereiro de 2006, na Bovespa, e em março de 2007, na Bolsa de Nova York. O grupo mantém 86% das ações em free float (livre negociação no mercado), e em 2007 pagou R$ 27 milhões em dividendos, o equivalente a 25% do lucro líquido.

"Na época em que fizemos o IPO na Bovespa, seguido por Nova York, não tínhamos dúvidas de que o caminho seria o da dispersão do capital", diz Duílio Calciolari, diretor de relações com investidores da Gafisa. A recente reviravolta no mercado de ações, com a fuga de capital estrangeiro, não abala o executivo. "As ações tiveram grande queda. Mas isso é momentâneo, todo o mercado sofreu."

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.