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Capital brasileiro volta a invadir a Argentina

Do mesmo modo que brasileiros vão às compras na fronteira, empresas nacionais aumentam aquisições de ativos no país vizinho

Thomaz Favaro, especial para o iG de Buenos Aires |

Não só as prateleiras dos supermercados de Buenos Aires estão repletas de produtos importados do Brasil. Os argentinos já se acostumaram a desconfiar que, mesmo em produtos e marcas tradicionais do país, também pode haver uma boa dose de capital brasileiro por trás. Na última década, grandes empresas locais, como a cervejaria Quilmes (adquirida pela AmBev), a cimenteira Loma Negra (pela Camargo Corrêa), o frigorífico Swift (JBS) e a petroleira Pérez Companc (Petrobras), passaram para as mãos de brasileiros.

Consultores e economistas consultados pelo iG concordam que a crise financeira mundial reduziu o fluxo de investimentos brasileiros no país vizinho, sobretudo no ano passado. Mas a retomada de crescimento de ambos os lados da fronteira reanimou o desejo de brasileiros de adquirir ativos argentinos, o que pode representar uma segunda onda de investimentos brasileiros. Em abril, o Banco do Brasil anunciou a compra do Banco Patagonia, quarta maior instituição financeira privada da Argentina. O valor da operação é estimado em US$ 480 milhões.

Como antes da crise, no entanto, o fenômeno abarca diversos setores da economia. A cimenteira Loma Negra, da Camargo Correa, acaba de comprar a Recycomb, empresa especializada no tratamento de resíduos industriais. A fabricante de jeans brasileira Santana Textiles anunciou este mês que vai injetar US$ 30 milhões em suas instalações na província de Formosa, no norte do país, para duplicar sua produção. Empresas brasileiras dos setores de calçados, construção civil e energia também sinalizaram novos investimentos na Argentina.

Primeira etapa das multinacionais

Pela proximidade e pelas semelhanças culturais, sociais e econômicas entre os dois países, os empresários brasileiros enxergam na Argentina a primeira etapa para a internacionalização de suas operações. A crise argentina de 2001 viabilizou o primeiro passo de muitos dos atuais investidores. “Em 2002, a desvalorização do peso após uma década de paridade com o dólar derrubou o preço das ações de empresas argentinas. Muitas foram compradas por brasileiros”, afirma Dadour Dadourian, diretor-executivo do Grupo Brasil, entidade que funciona como interlocutora das principais empresas brasileiras instaladas no país. Naquele ano, a maior parte dos US$ 1,5 bilhão injetado na Argentina foi destinada às operações de fusão e aquisição de companhias locais.

Capital verde-amarelo

Investimentos brasileiros na Argentina (em US$ bilhão)

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Banco Central do Brasil

 

Os investimentos brasileiros na última década totalizam uma quantia superior a US$ 10 bilhões. Hoje, atuam no país há aproximadamente 200 empresas brasileiras, entre as quais Petrobras, Ambev, Camargo Corrêa, Itaú, Bradesco, JBS Friboi e Gerdau. “Atualmente os investimentos predominantes são os projetos de ampliação da capacidade produtiva destas empresas”, afirma Dante Sica, diretor da consultoria argentina Abeceb.

Vantagens comparativas

Além da proximidade e da semelhança, a Argentina conta com outros atrativos aos empresários brasileiros. O primeiro deles é a taxa de câmbio: atualmente, o real vale 2,10 pesos argentinos, o que deixa os ativos argentinos baratos em relação ao real. O país também conta com uma mão-de-obra barata e bem instruída. Embora o salário mínimo seja maior na Argentina (US$ 380, contra US$ 290 no Brasil), o custo por hora trabalhada é menor por conta da carga tributária.

Embora situações como essa sempre gerem um pequeno desconforto entre os mais desconfiados, a chegada de capital brasileiro é, em geral, bem aceita na Argentina. Isto porque o fantasma do calote ainda dificulta a captação de dinheiro por parte dos empresários argentinos. O governo atual ainda não terminou de renegociar a dívida pendente do calote de 2001 e não anunciou data para pagar os US$ 6,7 bilhões que deve ao Club de Paris, um grupo de países credores. Segundo dados da consultoria abeceb.com, o total de empréstimos somados equivalem a 10% do PIB da Argentina. No Brasil, esta proporção chega a 50% do PIB.

A Bolsa de Valores de Buenos Aires, Merval, tampouco apresenta a mesma pujança que a equivalente paulista. Há menos de 100 empresas cotizando na bolsa portenha – na Bovespa, são 460. “Diante da falta de crédito, para muitos empresários argentinos a chegada de capital brasileiro é muito bem vinda”, afirma Dadourian, do Grupo Brasil.
 

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