Do mesmo modo que brasileiros vão às compras na fronteira, empresas nacionais aumentam aquisições de ativos no país vizinho

Não só as prateleiras dos supermercados de Buenos Aires estão repletas de produtos importados do Brasil. Os argentinos já se acostumaram a desconfiar que, mesmo em produtos e marcas tradicionais do país, também pode haver uma boa dose de capital brasileiro por trás. Na última década, grandes empresas locais, como a cervejaria Quilmes (adquirida pela AmBev), a cimenteira Loma Negra (pela Camargo Corrêa), o frigorífico Swift (JBS) e a petroleira Pérez Companc (Petrobras), passaram para as mãos de brasileiros.

Consultores e economistas consultados pelo iG concordam que a crise financeira mundial reduziu o fluxo de investimentos brasileiros no país vizinho, sobretudo no ano passado. Mas a retomada de crescimento de ambos os lados da fronteira reanimou o desejo de brasileiros de adquirir ativos argentinos, o que pode representar uma segunda onda de investimentos brasileiros. Em abril, o Banco do Brasil anunciou a compra do Banco Patagonia, quarta maior instituição financeira privada da Argentina. O valor da operação é estimado em US$ 480 milhões.

Como antes da crise, no entanto, o fenômeno abarca diversos setores da economia. A cimenteira Loma Negra, da Camargo Correa, acaba de comprar a Recycomb, empresa especializada no tratamento de resíduos industriais. A fabricante de jeans brasileira Santana Textiles anunciou este mês que vai injetar US$ 30 milhões em suas instalações na província de Formosa, no norte do país, para duplicar sua produção. Empresas brasileiras dos setores de calçados, construção civil e energia também sinalizaram novos investimentos na Argentina.

Primeira etapa das multinacionais

Pela proximidade e pelas semelhanças culturais, sociais e econômicas entre os dois países, os empresários brasileiros enxergam na Argentina a primeira etapa para a internacionalização de suas operações. A crise argentina de 2001 viabilizou o primeiro passo de muitos dos atuais investidores. “Em 2002, a desvalorização do peso após uma década de paridade com o dólar derrubou o preço das ações de empresas argentinas. Muitas foram compradas por brasileiros”, afirma Dadour Dadourian, diretor-executivo do Grupo Brasil, entidade que funciona como interlocutora das principais empresas brasileiras instaladas no país. Naquele ano, a maior parte dos US$ 1,5 bilhão injetado na Argentina foi destinada às operações de fusão e aquisição de companhias locais.

Capital verde-amarelo

Investimentos brasileiros na Argentina (em US$ bilhão)

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Banco Central do Brasil

Os investimentos brasileiros na última década totalizam uma quantia superior a US$ 10 bilhões. Hoje, atuam no país há aproximadamente 200 empresas brasileiras, entre as quais Petrobras, Ambev, Camargo Corrêa, Itaú, Bradesco, JBS Friboi e Gerdau. “Atualmente os investimentos predominantes são os projetos de ampliação da capacidade produtiva destas empresas”, afirma Dante Sica, diretor da consultoria argentina Abeceb.

Vantagens comparativas

Além da proximidade e da semelhança, a Argentina conta com outros atrativos aos empresários brasileiros. O primeiro deles é a taxa de câmbio: atualmente, o real vale 2,10 pesos argentinos, o que deixa os ativos argentinos baratos em relação ao real. O país também conta com uma mão-de-obra barata e bem instruída. Embora o salário mínimo seja maior na Argentina (US$ 380, contra US$ 290 no Brasil), o custo por hora trabalhada é menor por conta da carga tributária.

Embora situações como essa sempre gerem um pequeno desconforto entre os mais desconfiados, a chegada de capital brasileiro é, em geral, bem aceita na Argentina. Isto porque o fantasma do calote ainda dificulta a captação de dinheiro por parte dos empresários argentinos. O governo atual ainda não terminou de renegociar a dívida pendente do calote de 2001 e não anunciou data para pagar os US$ 6,7 bilhões que deve ao Club de Paris, um grupo de países credores. Segundo dados da consultoria abeceb.com, o total de empréstimos somados equivalem a 10% do PIB da Argentina. No Brasil, esta proporção chega a 50% do PIB.

A Bolsa de Valores de Buenos Aires, Merval, tampouco apresenta a mesma pujança que a equivalente paulista. Há menos de 100 empresas cotizando na bolsa portenha – na Bovespa, são 460. “Diante da falta de crédito, para muitos empresários argentinos a chegada de capital brasileiro é muito bem vinda”, afirma Dadourian, do Grupo Brasil.

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