Dólar volta a ceder, mercado ainda monitora governo

Por Silvio Cascione

SÃO PAULO (Reuters) - O dólar retomou a tendência de queda frente ao real nesta quinta-feira, seguindo a orientação do exterior, mesmo com as incertezas sobre uma intervenção mais agressiva do governo.

A moeda norte-americana fechou em baixa de 0,64 por cento, a 1,716 real.

Na véspera, o dólar interrompeu uma série de dez baixas consecutivas para subir 1,11 por cento, em meio a rumores sobre um possível leilão de swap cambial reverso e a comentários do ministro da Fazenda, Guido Mantega, sobre o uso de mais instrumentos para frear a valorização do real .

A queda nesta sessão ocorreu em sintonia com os mercados internacionais, em que o dólar voltou a perder valor em relação às principais moedas.

Na quarta-feira, o Japão vendeu cerca de 2 trilhões de ienes para barrar a queda do dólar frente a sua moeda, o que levou volatilidade ao mercado global.

"O mercado não tem motivo para subir. Nós temos uma taxa de juro alta e o dinheiro no mundo está sobrando", disse Moacir Marcos Júnior, operador de câmbio e especialista em hedge da corretora Interbolsa do Brasil.

Ele citou, entre as operações que atraem capitais ao país, a emissão pretendida de 1 bilhão de dólares em bônus com vencimento em 2021 pelo Itaú Unibanco. Outras captações têm ocorrido nas últimas semanas e há ainda a oferta de ações da Petrobras.

Segundo dados do Banco Central, entraram no país neste mês 2,114 bilhões de dólares até o dia 10. Na BM&FBovespa, a oferta de moeda estrangeira por parte de investidores externos já alcança 12,5 bilhões de dólares em contratos futuros e de cupom cambial (DDI), segundo dados de quarta-feira.

GOVERNO

Apesar da expressiva oferta de dólares no país, o discurso do governo contra a valorização do real provoca mudanças de estratégia de curto prazo de bancos, como o BNP Paribas, que recomendou compra de dólar a 1,719 real com alvo a 1,780 real.

"Se as condições do mercado melhorarem, a probabilidade de uma intervenção maior vai crescer, evitando que o real se valorize. Se as condições piorarem, o real se desvaloriza em linha com o resto do mercado. Por isso, o balanço de riscos pende para um real mais fraco no curto prazo", avaliou o estrategista Diego Donadio, do BNP Paribas, em relatório.

Dados das reservas internacionais indicam que o Banco Central reforçou as compras de dólares desde que passou a fazer dois leilões diários. As reservas alcançaram na quarta-feira o recorde de 266,098 bilhões de dólares .

Sobre a possível intervenção do Ministério da Fazenda por meio do Fundo Soberano, uma fonte do governo afirmou à Reuters que as compras seriam feitas "sem o mercado saber" e que a maior preocupação é com o ritmo das variações do mercado, e não com uma cotação específica . Questionado se o governo lançaria mão de medidas tributárias para conter o fluxo, a fonte disse que o IOF só seria usado como "último recurso."

(Reportagem adicional de Ana Nicolaci da Costa)

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.