Nos discursos, promessas de união eterna. Mas, na prática, cada um por si.

Sem conseguir uma estratégia comum, a Europa vê uma proliferação de medidas unilaterais de governos para salvar bancos e depósitos. Ontem, a Itália anunciou que vai voltar a propor a idéia de um fundo de emergência diante da crise financeira que desembarcou com toda a força no continente nos últimos dias. Mas, com os alemães se recusando a pagar a conta de um plano europeu, o máximo que a UE conseguiu foi emitir um comunicado em que os países prometem "trabalhar em coordenação para garantir a segurança dos depósitos feitos pelos cidadãos", enquanto viam as bolsas desabarem por falta de confiança.

Nada menos que sete países do bloco anunciaram ontem medidas unilaterais para tentar retomar a confiança dos cidadãos. Em Londres, a bolsa caiu 8%, na pior queda da sua história em um só dia, com perdas de £ 92 bilhões. Em Luxemburgo, uma reunião dos ministros das Finanças não conseguiu chegar a um acordo sobre um plano e, enquanto isso, bancos apresentavam também ontem os primeiros resultados de estudos que mostram que a zona do euro já está em recessão. Só no Reino Unido, a crise deverá levar 1 milhão de pessoas a perder o emprego em 2008.

Ao contrário dos Estados Unidos, a zona do euro não conta com um governo único, apesar de ter moeda comum e taxas de juros que atingem a todos. No sábado, na cúpula promovida em Paris, a UE não chegou a um acordo sobre um pacote único para o bloco. A proposta era da França e da Holanda. Mas a Alemanha vetou a idéia.

Ontem, mais uma vez, os ministros se limitaram a fazer promessas de que vão atuar de forma coordenada. Os líderes europeus garantiram que vão proteger os depositantes de perdas na poupança e apoiar o sistema financeiro, para fortalecer a confiança dos mercados.

Na prática, a coordenação não passou de palavras. Os alemães seguiram o exemplo dos irlandeses e anunciaram que garantiriam os depósitos de seus cidadãos. Portugal, Espanha, Suécia e Dinamarca ainda aumentaram os seguros dos depósitos, o mesmo feito por Grécia e França. Já a Islândia suspendeu as transações de seis bancos diferentes. A Áustria anunciou que estava pensando em seguir os mesmos passos de Berlim, para evitar que os clientes dos bancos tirassem o dinheiro e colocassem em bancos alemães, garantidos pela chanceler Angela Merkel.

Mesmo vendo o euro cair aos piores níveis em 13 meses, os ministros de Finanças da UE não conseguiram chegar a um plano. Na Alemanha, as autoridades foram claras: não vão pagar pela estabilidade de outros. O ministro das Finanças, Peer Steinbrueck, afirmou ontem que o governo estava planejando um "escudo" contra a crise para todo o setor financeiro alemão e deixou claro que um "escudo europeu" estava fora de questão. "Rejeitamos porque não teremos controle do dinheiro e como o dinheiro alemão será usado."

Sem previsão de um pacote, as bolsas despencaram. Na Alemanha, a queda foi de 7,1%. Na França, de 9%, o pior índice em 20 anos. O mercado avaliou que as garantias isoladas de cada governo mostravam que não havia um acordo sobre o que fazer. O Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra injetaram mais US$ 60 bilhões no mercado.

Diante do caos, a Comissão Européia decidiu sair em defesa de um ação coordenada. "Precisamos de um ação coordenada para evitar decisões unilaterais que criariam efeitos negativos", disse o comissário de Economia da UE, Joaquin Almunia. "Temos de dar confiança a nossos cidadãos, melhorar a situação entre os bancos e reduzir a tensão."

O primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi, afirmou que Roma vai recuperar a idéia de um fundo europeu, que seria apresentada entre ontem e hoje aos ministros de Finanças da UE, em Luxemburgo. O fundo seria formado com 3% do Produto Interno Bruto (PIB) europeu. Mas a confusão chegou ao ponto de Almunia, ao chegar à reunião dos ministros, dizer que não sabia de nenhum plano italiano de criação de fundo no modelo americano.

"Não estamos nem perto de um consenso sobre um fundo europeu", disse o ministro holandês de Finanças, Wouter Bos. Os holandeses foram os primeiros a defender um pacote. Para o ministro de Finanças da Espanha, Pedro Solbes, um fundo europeu seria "bem difícil" de ser implementado, já que a Europa não tem um orçamento federal. Já o ministro de Finanças do Reino Unido, Alistair Darling, fez um alerta para que os governos europeus parem de adotar medidas unilaterais para salvar bancos e cidadãos. Ele, assim como o Fundo Monetário Internacional (FMI), pede que o bloco adote um pacote comum para evitar a crise. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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