Para Jim ONeill, economista-chefe do Goldman Sachs, o grande desafio dos Brics no momento é controlar a inflação. Criador do acrônimo Brics (o conjunto de países formado por Brasil, Rússia, Índia e China), ele acha que há pressões inflacionárias e crescimento excessivamente acelerado em três daqueles países: Brasil, Índia e China).

Para Jim ONeill, economista-chefe do Goldman Sachs, o grande desafio dos Brics no momento é controlar a inflação. Criador do acrônimo Brics (o conjunto de países formado por Brasil, Rússia, Índia e China), ele acha que há pressões inflacionárias e crescimento excessivamente acelerado em três daqueles países: Brasil, Índia e China). ONeill conversou ontem com o Estado, por telefone, de Londres, às vésperas do início da cúpula de chefes de Estado dos Brics, em Brasília. <b>O que o sr. acha dessa segunda cúpula dos chefes de governo dos Brics?</b> Me sinto trapaceado por não ter um convite pessoal para ir à Brasília - é uma brincadeira, claro. Na verdade, me sinto excitado e, ao mesmo tempo, um pouco espantado pelo fato de que essa simples sigla que criei tenha se tornado algo tão grande. <b>Como o senhor vê o potencial dos Brics como grupo político?</b> Acho que é muito limitado, porque são países muito diferentes em termos políticos. Então, é difícil terem uma atuação conjunta. Por outro lado, o simples fato de que estejam se encontrando é em si mesmo útil, porque demonstra - ou deveria demonstrar - para o FMI, para o Banco Mundial, para a ONU, que ainda não temos uma estrutura ótima de governança global. O simples fato de que os Brics se encontrem é uma poderosa mensagem de que o mundo precisa de mais mudança. Apesar de não ter muita lógica política, eles têm tanta legitimidade quanto o G-7, senão mais. <b>Por quê?</b> Porque os Brics são 16% do PIB global, o que é mais ou menos 65% dos Estados Unidos. Antes de 2020, serão coletivamente tão grandes quanto os EUA. Além disso, é onde está o crescimento rápido da economia e do consumo. Os Brics, individualmente, são maiores do que o Canadá, que está no G-7, e a China está prestes a se tornar maior do que o Japão. Não faz sentido que o G-7 ainda seja visto como mais importante que os Brics. <b>E quanto ao G-20?</b> Eu diria que, de certa forma, a existência dos Brics é a razão de termos o G-20. E nós deveríamos ter um novo G-7 no qual os quatro Brics aparecessem individualmente, junto com os Estados Unidos, o Japão e a União Europeia (UE), como um membro. Mas, em última instância, o que importam são as instituições reais. Aquilo que é do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do Banco Mundial mudando, para ter maior representação desses países. Que esses países sejam grandes jogadores à mesa, com poderes que reflitam seus PIBs. <b>Alguns analistas dizem hoje que a Rússia não deveria estar nos Brics.</b> Isso é ridículo. É claro que merece. A Rússia foi muito mal na crise mas, na última década, seu crescimento do PIB, em termos absolutos, foi maior que o do Brasil. Dizem que sua população está encolhendo, mas, ainda que encolha, não cairá abaixo de 100 milhões, e a Rússia é hoje o país mais populoso na vizinhança da Europa. Na verdade, a Rússia provavelmente será a quinta ou sexta maior economia nos próximos 20 anos. <b>Há também a cobrança de que outros emergentes sejam considerados Brics, como Indonésia.</b> Há cinco países que são interessantes nesse contexto: Indonésia, México, Turquia, e dois outros muito controversos: a Nigéria e o Irã. Mas acho que nenhum dos cinco aproxima-se, nem remotamente, de ser tão importante quanto os quatro Brics. Muita gente fala da Indonésia, mas não faz sentido. A Turquia é maior economicamente que a Indonésia. <b>Quais são os grandes desafios econômicos para os Brics?</b> Acho que três deles, até o fim deste ano, têm o mesmo desafio. A China, a Índia e o Brasil encaram o desafio de garantir que a inflação não suba demais. <b>E por que chegaram a esse ponto?</b> Porque o crescimento está acima do potencial, está forte demais, acima da tendência de longo prazo. De certa forma, eles estimularam demais as economias. E isso ocorreu porque estavam compreensivelmente preocupados, depois da crise - exatamente como todo mundo. Esses países fizeram a coisa certa, mas agora é o momento de ter estratégias de saída. <b>Como esses três Brics estão administrando até agora esta ameaça inflacionária?</b> Está OK, mas o grande teste ainda está pela frente. No Brasil, acho importante que o Banco Central comece a apertar logo a política de juros. Nesse sentido, a reunião (do Copom) de abril será muito interessante,Hum, OK, mas o teste está vindo à frente. Eu acho importante que eles comecem a apertar logo, e o resultado da próxima reunião, em abril, será muito interessante. <b>No caso do Brasil, a saída da fase de estímulo poderia incluir a política fiscal?</b> Boa pergunta. Acho que seria muito sensato ao Brasil apertar a política fiscal. Ajudaria a frear a economia, sem pressionar tanto a política monetária e a taxa de câmbio. Eu suspeito que isso não vá ocorrer em ano eleitoral, mas faria sentido. <b>Como o senhor vê as eleições no Brasil em 2010?</b> Não tenho opiniões fortes sobre os dois candidatos principais, mas acho importante que, quem quer que ganhe, faça duas coisas: manter a força do apoio para um banco central independente e tentar reduzir o papel do governo na economia. <i>As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.</i>

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.