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O Brasil vai propor que os países europeus ampliem o gasto público para combater a crise

O Brasil vai propor que os países europeus ampliem o gasto público para combater a crise. A posição será levada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva à reunião de cúpula do G-20, programada para este fim de semana em Toronto, no Canadá. "Nossa posição é que não se dê tanta ênfase no ajuste fiscal", disse o ministro da Fazenda, Guido Mantega. "Defendemos um plano de redução de dívida de mais longo prazo e que se privilegie o crescimento." A proposta é o contrário do que vem sendo feito no continente europeu, onde países como Portugal, Espanha e Alemanha anunciaram pesados cortes de despesas. A restrição atingiu até os programas sociais. Segundo Mantega, a reunião do G-20 discutirá a possibilidade de os europeus "aumentarem o gasto para reverter o quadro". É o que se chama de política anticíclica, adotada pelo Brasil no fim de 2008 - com bons resultados, na avaliação do ministro. "O Brasil que saiu da crise é um Brasil melhor." O presidente Lula bateu na mesma tecla em discurso na sexta-feira. "Nessas crises temos de fazer o contrário (do que vem fazendo a Europa): investir, que foi o que nós fizemos, e por isso o Brasil está numa situação confortável, boa, economicamente." "Esse conselho seria um desastre para a Grécia", comentou o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola, sócio da Tendências Consultoria Integrada. "Para a Alemanha, poderia ser bom, mas é complicado pedir a ela que adote uma política doméstica arriscada para ajudar outros países." O problema de manter uma política anticíclica, na opinião de Loyola, é o efeito que isso pode ter na percepção dos mercados financeiros e, consequentemente, no financiamento da dívida desses países. "O ajuste fiscal não é uma decisão que os países estão tomando porque decidiram tomar." Essa é também a opinião do economista-chefe da corretora Convenção, Fernando Montero. Ele acredita que a adoção de políticas anticíclicas pelos países europeus afetados pela crise pode gerar incertezas nos financiadores da dívida. Isso porque a Europa enfrenta um quadro de baixa demanda e juros próximos a zero - o contrário do que se verifica no Brasil, que tem alta propensão de consumo das famílias e do setor público e os juros mais elevados do mundo. Os cortes em benefícios sociais, empregos públicos e outros gastos do governo em países como Grécia e Espanha fazem parte de uma estratégia para provocar deflação, segundo explicou o professor André Martins Biancareli, da Unicamp. "O objetivo, declarado ou não, é de reduzir preços e salários", disse ele. "Há um diagnóstico de falta de competitividade e, como esses países não podem desvalorizar o câmbio, aposta-se na deflação de preços." Para o professor, a posição do Brasil é correta. "Nós, da América Latina, temos experiência e podemos dizer que o ajuste fiscal, com cortes pesados, é muito prejudicial ao crescimento." Diferenças políticas. Os Estados Unidos, assim como o Brasil, acham que é preciso tomar cuidado com as medidas de austeridade, porque um aperto prematuro e exagerado pode abortar a recuperação econômica mundial. Mas se no campo econômico Washington e Brasília estão afinados, no campo político não parece ter havido nenhuma melhora nas relações Brasil-EUA. Em Toronto, o presidente americano, Barack Obama, terá encontros bilaterais com David Cameron, primeiro-ministro da Grã-Bretanha; Naoto Kan, do Japão; Susilo Yudhoyono, da Indonésia; Hu Jintao, da China; Manmohan Singh, da Índia; Lee Myung-Bak, da Coreia do Sul; e recebe Dimitri Medvedev, da Rússia, na Casa Branca hoje. O presidente Lula não terá um encontro bilateral com Obama. Perguntado se não seria importante um encontro com Lula, dada a atuação do presidente brasileiro no problema iraniano, Ben Rhodes, vice-assessor de segurança nacional, deu uma resposta evasiva. Ele afirmou que há possibilidade de todos os líderes conversarem informalmente às margens do G-20. Não citou o nome do presidente brasileiro em nenhum momento da entrevista coletiva de 40 minutos.

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