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O fim do embargo da União Européia ao mel brasileiro, em março deste ano, está mudando a rotina - e os lucros - dos pequenos produtores do País. Com a queda da restrição, que já durava dois anos, os apicultores correm contra o tempo para adaptar sua produção às exigências do atraente mercado europeu.

"Estamos tendo de mudar tudo, mas o esforço vale a pena. É um mercado muito lucrativo", diz Antônio José de Souza, apicultor e coordenador de uma casa de mel (local de beneficiamento do produto) em Santana do Piauí (PI).

Desde março, o produtor está fazendo adaptações na estrutura da casa. Trocou as portas das instalações, comprou novas centrífugas e exigiu a realização de exames médicos em todos os funcionários. Parte dos custos das mudanças é financiada pelo Sebrae. "Tudo tem de ser diferente", diz Souza, que produziu 11 toneladas de mel no ano passado - metade exportada para os Estados Unidos. Após obter o aval do Ministério para exportação para a UE, a expectativa do apicultor é que a produção dobre em 2009.

Assim como Souza, outros 23 donos de estabelecimentos solicitaram este ano ao Ministério da Agricultura a habilitação para vender à UE. Pelo menos sete foram certificados, e os demais aguardam as auditorias do órgão federal.

A Prodapys, de Araranguá (SC), foi a primeira empresa a conseguir a autorização, em junho. Segunda maior exportadora do País, a companhia está, desde o início do ano, ajudando os produtores parceiros (dos quais compra a matéria-prima para, depois, comercializá-la) a se adaptarem às exigências. Nove já conseguiram.

"Eles têm boa vontade, mas falta conhecimento técnico", diz o gerente de exportações, Tarciano Santos da Silva. A Prodapys fornece uma espécie de empréstimo, de R$ 5 mil a R$ 20 mil, para os produtores investirem nas mudanças necessárias. O valor será descontado, gradualmente, nas vendas dos apicultores à empresa. Além disso, a companhia catarinense providencia toda a documentação para obter o registro no Ministério.

Tarciano prevê que, em seis meses, cerca de 90% da produção seja destinada ao mercado europeu. Segundo ele, os países da UE pagam até 15% a mais pelo mel brasileiro que os Estados Unidos e o Canadá, para onde foi "desviada" a produção da companhia após o embargo.

Outro interesse dos produtores nacionais está no "comércio justo" europeu, movimento que prioriza negócios com empreendimentos socialmente responsáveis. A Casa Apis, que reúne produtores de dez cooperativas no Nordeste, está batalhando para receber a certificação oficial e conseguir vender a uma ONG de comércio justo da Bélgica. A entidade, que compra produtos derivados da agricultura familiar, visitou as cooperativas recentemente e demonstrou interesse pelo mel.

Segundo o coordenador-geral da Casa Apis, Edmilson Nunes, o produto com selo "fair trade" é vendido a US$ 2,80 - US$ 0,80 a mais que o mel convencional. "Acreditamos que em dois meses possamos ter a autorização para exportar."

Com o fim do embargo, as vendas de mel brasileiro para a UE dispararam. De janeiro a setembro, a receita das exportações chegou a US$ 29,7 milhões. Em todo o ano passado, o valor ficou em US$ 21,2 milhões. A Alemanha voltou a ser o principal destino das vendas externas de mel do País, substituindo os Estados Unidos, que agora são o segundo mercado.

A crise financeira que sacode a economia mundial ainda não assusta os produtores. Segundo Edmilson Nunes, da Casa Apis, a alta do dólar vai garantir preços melhores para os exportadores. "Estamos otimistas."

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