GENEBRA - O Brasil manifestou seu desapontamento com o novo fiasco sobre um acordo agrícola e industrial na Rodada Doha, que deve ser admitido nas próximas horas pelo diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Pascal Lamy. Sempre estivemos engajados, sempre consideramos que um acordo até o fim do ano seria um sinal positivo na situação econômica atual, declarou o embaixador brasileiro junto à OMC, Roberto Azevedo, ao deixar há pouco a entidade de comércio. O Brasil era o país que mais podia ganhar na área agrícola, com mais de US$ 4 bilhões adicionais de exportações. E pagaria relativamente pouco na área industrial, no caso de um acordo, na avaliação generalizada de analistas.

Já o embaixador dos Estados Unidos, Peter Allgeier, foi incisivo à saída da OMC, matando de vez a tentativa de acordo até o fim do ano.

"Não será prudente ter uma reunião ministerial antes de 20 de janeiro (quando o novo presidente Barack Obama assume o poder)", disse Allgeier. Indagado se assim não dava mesmo para haver uma negociação sob a administração Bush, Allgeier retrucou que não seria prudente.

Mas Pascal Lamy ainda resiste formalmente declarar o novo fiasco. Ele disse aos embaixadores dos principais países que, "a menos que algo dramático ocorra nas próximas 48 horas", não convocará a reunião ministerial que planejava para tentar um acordo.

Ou seja, aparentemente o diretor da OMC ainda tenta fazer pressão, enquanto outros embaixadores dizem que a situação é tão difícil que uma reunião ministerial seria garantia de fiasco de toda maneira.

Na opinião quase generalizada, o país que quebrou a tentativa de acordo agora foi os Estados Unidos. "Os EUA tiveram muita ganância", disse o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Washington quis alterar o pacote de concessões delineado em agosto, apresentando novas demandas para o Brasil, China e Índia - membros do G-7, grupo dos mais influentes na OMC - acelerarem o corte de tarifas industriais.

Mas Allgeier foi duro ao rechaçar as acusações feitas pelo Brasil, dizendo que desde 2004 os emergentes sabem que a negociação de acordos setoriais na área industrial estavam previstas. O embaixador americano também comentou discordar "fortemente" ? do ministro Amorim, que acusou o presidente eleito Obama de não assumir sua responsabilidade e dar um sinal positivo para Doha poder avançar.

Negociadores estimam que pode demorar de três a quatro anos para uma negociação global ser retomada. Provavelmente, pode ser em novas bases e novas exigências.

(Assis Moreira | Valor Econômico para Valor Online)

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