Professor responsável por estudo do Fórum Econômico Mundial diz que falta incentivo para empresas ganharem com o mercado externo

Apesar de ocupar a posição de maior exportador de commodities do mundo – e de ter voz de liderança no Mercosul -, o Brasil está longe de ser um gigante do comércio mundial. Ao menos é o que afirma Carlos Arruda, professor da Fundação Dom Cabral e responsável pelos estudos de competitividade elaborados no Brasil para o Fórum Econômico Mundial. Números da Organização Mundial do Comércio (OMC) mostram que o Brasil responde atualmente por menos de 1% do fluxo comercial global.

Segundo dados do último Relatório de Facilidades de Comércio, o Brasil se manteve na 87ª posição entre os anos de 2009 e 2010, em uma lista de 125 países (veja a matéria completa no box ao lado) .

Em entrevista ao iG , Arruda diz que o Brasil não é um grande player do comércio internacional e critica o foco das empresas brasileiras, que voltam suas forças ao mercado interno. Para o economista, o Brasil está em um processo de desindustrialização, com o aumento das exportações de commodities básicas na pauta, em detrimento de produtos com maior valor agregado.

Na avaliação de Arruda, o cenário é negativo para o Brasil e as medidas anunciadas pelo governo são “tímidas” para mudar a realidade do País no cenário global.

Confira a íntegra da entrevista concedida por Carlos Arruda ao iG :

Arruda: País passa por desindustrialização
Divulgação
Arruda: País passa por desindustrialização
iG: O fato de o Brasil não ter avançado no ranking de Facilidade de Comércio de 2010 indica que o País estagnou no comércio mundial?
Carlos Arruda: O Brasil, do ponto de vista do comércio internacional, não é um grande player. Ele participa de cadeias muito especificas e tem uma tradição de que vale mais a pena vender dentro do Brasil que exportar. As empresas que não são exportadoras não têm uma grande orientação para fazer um esforço extra para vender para o mercado internacional.

iG: E quais são as consequências disso?
Arruda: Recentemente, podemos citar que há uma desindustrialização em andamento. Tem um início desse processo com o aumento da participação das commodities básicas, como soja, suco de laranja. Há uma tendência a diminuir a exportação de produtos de maior valor agregado. O Brasil tem se mantido como um país não muito orientado para o comércio internacional. Temos poucos players com estratégias bem definidas para exportações.


iG: É desvantagem para o Brasil ser um grande exportador de produtos básicos, em detrimento de produtos com maior valor agregado?
Arruda: As empresas, mesmo as que têm como prioridade o mercado domestico, se beneficiam muito tendo um percentual de sua produção voltado para exportação. Isso aumenta as exigências em cima dessas empresas e, consequentemente, amplia a competitividade da empresa no mercado interno. Eu vejo que não é só uma questão de volume de exportação, e sim de exposição internacional. O Brasil está cada vez mais exposto na economia mundial e as empresas precisam estar prontas para participar desse esforço.

iG: Quais são os principais entraves para que o Brasil melhore sua posição no comércio global?
Arruda: Marco regulatório. Tudo o que se refere a marco regulatório no Brasil não está nada bem. O país não vem fazendo as reformas no sistema que regulamenta as atividades empresariais. Tudo o que se refere a marco regulatório que é citado no relatório Doing Business, do Banco Mundial, o Brasil vem ficando para trás. O Chile nos anos 80 fez muitas reformas, que tornaram a economia mais dinâmica e ágil. O Brasil não fez e não vem fazendo essas reformas na velocidade necessária e isso gera uma defasagem muito grande de fazer negócio no Brasil e gera ineficiências. O Brasil está ficando muito para trás. Isso requer uma atitude do governo e do Legislativo. Por ser um pais em que o Executivo opera em cima de acordos com diferentes partidos, o avanço nas reformas se torna muito mais difícil. É mais difícil fazer esse tipo de coisa em uma democracia que em um regime fechado.

iG: No curto prazo, o senhor acredita em avanços com relação às reformas? As eleições tendem a barrar ainda mais esse processo...
Arruda: Nós tínhamos muita expectativa que o governo Lula fizesse essas reformas. O PT tem sido o partido de oposição mais forte. Quando chegou ao poder, seria a oportunidade de fazer os acordos necessários para essas reformas. Como isso não aconteceu, vai ficando cada vez mais difícil. Qualquer representante do Legislativo tem consciência da necessidade das reformas. A consciência existe e as soluções também. Países vizinhos mostraram que há soluções mais simples para serem implantadas. É uma questão de acordo partidário. Quem assumir o próximo governo deveria ter isso como prioridade. A oportunidade passou, mas podemos aproveitar outras futuras.

iG: A melhor avaliação do Brasil no ranking diz respeito à Infraestrutura de Transportes e Telecomunicação, que é um segmento bastante criticado internamente. Isso mostra que o cenário nos outros pilares é muito negativo?
Arruda: O cenário é negativo. A infraestrutura é consequência das outras situações. O Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) deu uma perspectiva positiva para superar as deficiências do passado, mas não para projetar o Brasil do futuro. É uma agenda positiva, mas não é forte o suficiente para essa antecipação. O Brasil terá de fazer esforços grandes em todos os sentidos, aeroportos, portos e rodovias. Além de tratar algumas agendas que precisam ser aceleradas, o custo do acesso à internet, a banda larga, que o Brasil precisa acelerar rapidamente para a Copa do Mundo de 2014, a Olimpíada de 2016 e para o pré-sal.  O Brasil tem um momento muito bom, porque existem referencias para o futuro, mas a nossa realidade não é tão favorável assim. O grau de implantação desses investimentos estão defasados em cerca de 45%. As reformas não foram feitas e não serão feitas em 2010. Estamos deixando muita agenda para os próximos anos, o que é preocupante.

iG: A crise internacional trouxe à tona novamente a discussão sobre o papel do Estado como agente propulsor da economia. Na sua avaliação, quem deve ocupar o papel principal para que o Brasil tenha um papel mais relevante no comércio mundial?
Arruda: Do ponto de vista regulatório, o governo é fundamental. Temos uma situação critica no Brasil, que é essa confusão entre Estado e governo. O Estado é fundamental para promover as reformas necessárias, as políticas públicas de desenvolvimento, com a participação da iniciativa privada. Quem é competitivo são as empresas. O papel do Estado é criar o ambiente favorável para as empresas competirem. As medidas anti-crise mostram que o Estado tem capacidade para isso.

iG: Em maio, o governo anunciou um pacote de medidas para setor exportador. O senhor acredita que essas iniciativas ajudarão o Brasil a mudar sua posição no comércio global?
Arruda: São medidas muito tímidas. O governo tem ferramentas mais significativas, como a questão tributária. No ano passado, tivemos incentivos para o consumo doméstico, que poderiam ser usados de forma mais significativa. De certa forma [o pacote] decepcionou. Precisava ser mais planejado e discutido, com medidas mais acertivas. Entende-se que não é momento para grandes mudanças, porque é ano eleitoral, a economia interna está aquecida e há sempre a preocupação do superaquecimento. Isso tem de ser feito com muito cuidado. O Brasil é um pequeno player global e isso faz falta. O Brasil tem que aumentar ações para o comércio internacional e incentivar as empresas a irem ao mercado internacional de maneira estratégica e não só oportunista.

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