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A crise atinge a economia real, agora é global. O FMI reduziu a previsão de crescimento mundial de 4,1% para 3,9% e reconhece que alguns países caminham para a recessão.

Até junho, ainda se acreditava que a economia não seria tão severamente atingida, afinal, o PIB dos EUA e dos países emergentes continuavam crescendo. Mas a situação se deteriorou em setembro.

Ben Bernanke, do Fed, e Henry Paulson, do Tesouro dos EUA, tardaram muito a reconhecer as proporções da crise e a agir; o banco europeu pecou ainda mais ao resistir até ontem a cortar os juros, mesmo quando a economia começou a despencar. Nesta terça-feira, ele surgiu com cara de réu, mas não reconheceu o erro.

ALEMANHA DE NOVO

Mais grave, a Alemanha, isolacionista, como sempre, pecou ao impedir a aprovação de um socorro semelhante ao dos EUA, na reunião de chefes de governo em Paris. Se tivessem posto à disposição do sistema financeiro um pacote comum de US$ 1,4 trilhão, provavelmente teria sido menor o choque nas bolsas. Esta coluna errou também ao deixar-se levar pelas previsões menos sombrias dos que acreditavam na resistência maior das economias americana e européia. Pede desculpas e tenta buscar consolo em Keynes, que, ao ser criticado por ter errado uma previsão e voltado atrás, ele disse: "Quando as circunstâncias mudam, eu mundo também, e o senhor?"

Felizmente, fica mantida a previsão de que a economia brasileira não será tão atingida quanto a americana e a européia. Vamos crescer 5% neste ano, menos no próximo, mas há condições para permanecermos em torno de 4%. Lula deixou que a equipe econômica agisse em tempo.

Ontem, os BCs mais importantes aprovaram um corte comum de 0,50 ponto nos juros. Acalmou o mercado, com exceção do europeu, ainda abalado pela inércia da União Européia. Mas a volatilidade continuava em Wall Street. Os investidores ainda desconfiam da eficácia dos próximos passos e aguardam a reunião do G-7, em Washington. A bolsa dos EUA se afastou da segunda-feira negra e terminou com baixa de pouco mais de 2%. A nossa caiu mais, enfraquecida pela queda das commodities e pelas perdas de grandes empresas com o dólar.

O DRAMA QUE NÃO É NOSSO

Como as autoridades monetárias, a começar pelo governo Fernando Henrique, agiram corretamente o tempo todo, não temos nem problemas no sistema bancário nem dívidas gigantes acumuladas pelas famílias e empresas. Só para ilustrar, as famílias americanas devem hoje US$ 14,3 trilhões, mais que o PIB! Desses,US$ 11,8 trilhões são em hipotecas imobiliárias. Nada menos que US$ 5,3 trilhões em empréstimos duvidosos das duas hipotecarias nas quais o governo interveio. Os consumidores devem US$ 2,5 trilhões em cartões ou empréstimos de bancos e financeiras. Só essas estão sendo roladas normalmente e serão beneficiadas por juro menor. Nós não temos nada disso.

O QUE ELES ESTÃO FAZENDO

Ações do Fed, banco central, e do governo americano:

1 - Injetaram cerca de US$ 800 bilhões nos bancos pelo redesconto e outras formas; 2 - estimularam a fusão de grandes bancos e assumiram as duas maiores agências hipotecárias, que tinham títulos imobiliários no valor de US$ 5,3 trilhões; 4 - obtiveram a aprovação do Congresso para usar US$ 700 bilhões na compra de todos os títulos que envenenam o sistema; 5 - O Fed, em ação coordenada com os outros BCs, cortou os juros em 0,50 ponto para reduzir o custo do dinheiro e estimular o consumo; 6 - importante, está agindo na oferta de commercial papers, empréstimos de curto e médio prazos que os bancos e financeiras oferecem às empresas para financiar as atividades cotidianas ou pagar salários. O mercado desses papéis nos EUA é da ordem de US$ 1,6 trilhão e estava parando: 7 - agora, num gesto único e dramático, o Fed passou sobre os bancos e está oferecendo crédito direto às instituições não financeiras.

E O QUE FAZEMOS NÓS

O BC e a equipe econômica foram mais cautelosos e agressivos. Até agora, injetaram ou puseram à disposição das empresas e dos bancos uma soma estimada em R$ 75 bilhões, mas nada para socorrer mutuários inadimplentes. O objetivo é financiar as exportações e aumentar a oferta de recursos para as empresas e manter a atividade econômica.

1 - O BC injetou dinheiro no sistema primeiro, reduzindo o depósito compulsório dos bancos; 2 - direcionou o dinheiro para a compra de carteiras de bancos menores; 3 - num gesto único, ele mesmo, o BC, está disposto a comprar essas carteiras, numa espécie de concorrência com os bancos; 4 - passou a vender dólares das reserva para conter a alta excepcional da cotação; 5 - passou a vender dólares no mercado; 6 - num ato excepcional, que exigiu até medida provisória, o BC está emprestando, em dólares, diretamente às empresas; 6 - com o dinheiro, está financiando as exportações com recursos das reservas cambiais. Ao mesmo tempo, o governo fortaleceu o BNDES com mais R$ 18 bilhões, o Ministério da Agricultura com R$ 5 bilhões e a Marinha Mercante, que pesa nas encomendas, com R$ 10 bilhões.

Conclusão? O mundo está enfrentando uma das maiores crises financeiras da sua história, que ameaça seriamente a economia. E nós estamos lutando bem. Acreditamos, em tempo, que não somos uma ilha e nos preparamos para impedir os invasores. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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