O Brasil e a Argentina começarão na segunda-feira o comércio bilateral sem o uso dos dólares, o Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML), ou o denominado comércio desdolarizado. Com isso, o comércio entre empresários dos dois países poderá ser realizado em pesos e reais, deixando de lado a moeda americana, utilizada há décadas nas operações de exportações e importações.

A presidente Cristina Kirchner, que comandou a cerimônia de formalização do sistema na sede do Banco Central em Buenos Aires, disse que o lançamento do SML é "um fato histórico, que transcende as fronteiras da economia e das finanças".


Cristina exaltou a desdolarização do comércio, e - em tom de autocrítica - afirmou que os argentinos durante décadas "só pensaram em dólares, ao contrário do Brasil, onde as pessoas pensam em reais... e também de forma mais real".

O presidente do Banco Central do Brasil, Henrique Meirelles, convidado especial do evento, afirmou que "o início das operações do novo sistema em moedas locais ocorre, por coincidência, em um período de forte instabilidade nos mercados financeiros internacionais, que está semiparalisado, e de restrição de liquidez às operações comerciais globais".

A idéia do comércio desdolarizado é um velho projeto na região. Mas, somente nos últimos três anos, as equipes econômicas dos dois países - e os integrantes dos bancos centrais - começaram a detalhar o esquema. Em 7 de setembro, durante a visita de Cristina Kirchner a Brasília, foi assinado um acordo que marcou o lançamento do SML para 6 de outubro.

O plano, segundo fontes do governo argentino, é que a desdolarização do comércio seja o pontapé inicial para a integração monetária do bloco do Cone Sul, o que levaria à criação de uma moeda única do Mercosul. Quando o bloco foi criado, o comércio entre Brasil e Argentina era de US$ 1 bilhão. Hoje, ultrapassa US$ 30 bilhões.

O SML será voluntário e regido pela taxa cambial de referência do Brasil e da Argentina, a ser fixada diariamente, e não pelo câmbio do mercado. Além disso, o sistema elimina as comissões que os bancos nos EUA cobravam para as operações entre Brasil e Argentina. Com isso, permitirá grande redução dos custos para as operações comerciais, principalmente para as pequenas e médias empresas.

O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, que assistiu à cerimônia de lançamento do SML, disse que hoje um grupo de empresários brasileiros - que havia vindo para participar de um seminário sobre o novo sistema desdolarizado de comércio - se reunirá com Meirelles na Embaixada do Brasil. "Esse grupo quis aproveitar a presença do presidente do BC - considerando nossas preocupações em relação a financiamento para exportação, empréstimos e falta de créditos - e tomar o café da manhã com ele."

Ao avaliar a crise financeira mundial, Cristina Kirchner afirmou que o mundo, em relação a semanas atrás, está "um pouco mais atribuladinho". Citando o velho provérbio chinês, a presidente também indicou que "toda crise implica uma grande oportunidade". As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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