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Brasil dá sinais de flexibilização na rodada Doha

O Brasil dá sinais de flexibilizar sua posição na Rodada Doha, mas o processo na Organização Mundial do Comércio (OMC) está por um fio. Ontem, americanos e europeus continuaram a pressionar os países emergentes por maior acesso a seus mercados para bens industriais.

Agência Estado |

O Itamaraty indicou que pode adotar nova postura na abertura de seu mercado. Mas seus principais aliados, Índia e Argentina ainda resistem, ameaçando o processo e a coalizão entre os países emergentes.

Lançada em 2001 como forma de corrigir as distorções no comércio internacional e dar mais benefícios aos países emergentes, a Rodada Doha ganhou contornos políticos. Diante da relutância da Índia em aceitar qualquer tipo de acordo, até a Casa Branca decidiu intervir.

O presidente americano George W. Bush ligou para o primeiro-ministro da Índia, Manmohan Singh, alertando para os riscos da posição da Índia. Bush então tentou uma última cartada falando apenas de cooperação nuclear e da OMC.

Num encontro reservado em Genebra, o chanceler brasileiro Celso Amorim e a representante de Comércio da Casa Branca, Susan Schwab, concordaram que os indianos estavam dificultando um acordo. O próprio Amorim chegou a pensar em pedir ao presidente Lula para fazer o mesmo que Bush. O Itamaraty julga que o processo está em uma fase crítica, tanto politicamente como tecnicamente.

Algumas horas depois da ligação de Bush, a Índia aceitou continuar a negociação, mas sem fazer qualquer concessão. Diante do cenário, Amorim alertou que hoje será um dia decisivo para o processo e o Itamaraty não esconde que espera que a Índia mude de posição.

"Vamos continuar as discussões amanhã (hoje) e acho que será o dia em que saberemos se um acordo é possível ou não", afirmou Amorim. "Talvez não terminaremos tudo, mas precisamos ter um acordo. O tempo está se esgotando e há, é claro, o limite da resistência física", acrescentou. Schwab também confirmou a necessidade de se ter um acordo hoje. "Veremos se todos estão preparados para fazer a sua parte", disse.

Durante o dia, as resistências da Índia fizeram com que os rumores indicassem que haveria um fracasso, depois de sete anos de negociações. Mas, como resumiu o embaixador da França na OMC, Phillip Gross, "um morto foi ressuscitado".

O principal debate se refere ao fato de que os emergentes julgam que a oferta feita pelos americanos em estabelecer um teto para os subsídios agrícolas é insuficiente. A Índia usa essa desculpa para evitar qualquer concessão. Argentina e África do Sul também evitam falar em aceitar o acordo.

Os americanos insistem que deve haver uma regra que estabeleça que setores inteiros da economia sejam liberalizados. A Casa Branca quer pelo menos dois: automotivo e químico. O Brasil insiste que não tem como aceitar isso, mas concorda em debater um texto em que cada país se comprometa pelo menos a negociar a abertura de setores de forma voluntária. A Anfavea (associação das montadoras brasileiras) já alertou o governo que não tem como aceitar tal proposta. A Fiesp (federação das indústrias de São Paulo) também rejeita.

Antes do encontro, o comissário de Comércio da UE, Peter Mandelson, se reuniu com os estados membros do bloco e avisou que o fracasso estava perto. Ele culpava o Brasil por adotar posições extremistas no capítulo de produtos industriais.

Durante a reunião entre os sete principais atores, o Itamaraty teria dado sinais de flexibilidade. Para Mandelson, as flexibilidades pedidas pelo Mercosul eram exageradas.

Dentro da sala de negociação, fontes revelaram que o Brasil se mostrou flexível nos momentos decisivos. O problema é que o Brasil não conseguiu convencer os demais emergentes a seguir suas propostas.

Uma das propostas sugeridas pelos americanos apontava para corte de 58% nas tarifas industriais brasileiras. A Fiesp alertou que o corte seria importante. Mas os americanos admitiram que aceitariam que um número maior de setores fosse mantido protegido.

Mas a Índia se recusou, dando motivos para que Argentina, África do Sul e outros também continuassem a dar declarações de que não estavam prontos para um acordo. Para deixar claro o racha entre os emergentes, Costa Rica, México e Chile iniciaram a construção de uma nova proposta de cortes de tarifas, tentando acomodar todos os interesses.

Mercosul

Já os argentinos sequer deixam claro sua posição. Insistem que precisam manter 16% de suas linhas tarifárias em proteção no setor industrial. O Brasil aceitaria entre 13% e 14%, mas não consegue fazer com que os argentinos mudem de idéia. O problema é que os dois fazem parte do Mercosul e precisarão chegar a uma posição comum. Ontem, o governo argentino continuava rejeitando qualquer flexibilidade.

Tanto no Mercosul como na aliança com a Índia, o Brasil sabe que não poderá romper a coalizão. Mas sente que precisa convencer os demais países a modificar suas posições. "Se a Índia não mudar de postura, vamos ter um fracasso na OMC", disse um diplomata brasileiro.

Os sinais negativos se proliferavam. Em encontro fechado com ONGs, o ministro do Comércio da Índia, Kamal Nath, deixou claro que a OMC não tinha mais relevância nesse momento para o crescimento do país e uma liberalização apenas atrapalharia o processo de expansão da economia. "Seremos o maior produtor de carros do mundo logo. Por que motivo é que temos de abrir agora nosso mercado?", questionou Nath.

Em plena negociação, Nath irritou muitos participantes ao abrir o jornal. O indiano abandonou a sala de reuniões, sem avisar o motivo.

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