Dez dias após a compra da Tenda pela Gafisa, a canadense Brascan Residential Properties (BRP) assumiu ontem o controle da construtora paulista Company, em mais um lance do movimento de consolidação do setor imobiliário. Os acionistas da Company vão embolsar R$ 200 milhões e receber o restante em 76,978 milhões de novas ações ordinárias da Brascan.

A empresa resultante dessa operação estará entre as três maiores do mercado em banco de terrenos e lucratividade.

Os controladores da Company terão 15% da nova empresa, cujo patrimônio líquido será de R$ 1,6 bilhão. Eles ficam obrigados a permanecer na empresa por, no mínimo, três anos. A partir dessa data, podem vender até 30% das suas ações. Dois anos depois, têm a opção de sair completamente do negócio. Além disso, terão de participar da gestão da Brascan, em três diretorias estratégicas, nos dois primeiros anos. É a forma que a Brascan encontrou para manter a inteligência da Company dentro da nova empresa.

"Não é uma aquisição pura e simples. Seria preciso recorrer ao (dicionário) Aurélio para checar a diferença, mas se os controladores da Company terão 15% da nova empresa e continuarão como executivos, trata-se de uma fusão", explica o diretor-financeiro e de relações com investidores da Company, Luiz Rogelio Tolosa.

As ações da duas empresas vêm sofrendo desde o começo do ano. Os papéis da Company já caíram 49,5% e os da Brascan, 46%. Os executivos acreditam que a combinação das duas companhias mudará a percepção do mercado, invertendo essa tendência. Em tese, é verdade. "O benefício imediato de uma fusão é a melhora da análise de crédito da empresa, que, com um patrimônio líquido maior, eleva seu limite de crédito", diz a diretora da consultoria Alvarez & Marsal, Fabiana Fakhoury. "São duas empresas com presença forte no setor, que vão formar uma potência e atuar em um patamar muito acima do que estavam antes", completa o analista da Link Investimentos, Leonardo Cavarge.

A Company estava com seu crescimento comprometido por falta de alternativas de crédito, segundo os analistas. A empresa, como a maioria do setor que foi à Bolsa no ano passado, gastou boa parte do dinheiro que levantou na abertura de capital na compra de terrenos. "Ela não tinha banco de terrenos e sua única alternativa era vender ativos para continuar crescendo", diz o consultor financeiro da Arsenal Investimentos, Gustavo Junqueira. "Dada a diluição dos controladores, o melhor foi sair da posição de controlador de um negócio pequeno para ser um minoritário de um negócio grande e que pode ser maior."

No caso da Brascan, a operação sinaliza o apetite dos canadenses - o fundo Brooksfield, seu controlador - pelo mercado imobiliário brasileiro, um dos poucos que crescem em ritmo frenético no mundo. A fusão ocorre apenas cinco meses após a aquisição da MB Engenharia, do Centro-Oeste. "O fundo está enxergando que há oportunidades após as violentas desvalorizações das ações do setor imobiliário", diz Junqueira.

O mercado acredita que a Brascan vai seguir fazendo outras aquisições. "A Brascan está no País há mais de cem anos e tem uma visão muito positiva do Brasil. Nos últimos 12 meses, investiu US$ 1,5 bilhão em outros setores, como energia e shopping center", afirma o presidente da BRP, Nicholas Reade. "A gente precisa digerir o que acabou de absorver. Possivelmente no ano que vem a gente abra o olho de novo."

Reade revela que "olhou" outros negócios antes de fechar acordo com a Company. "Mas ela era a que mais correspondia aos nossos anseios. A gente queria uma empresa com presença forte em São Paulo." As duas empresas têm atuação geográfica complementar. A Brascan é forte no Rio de Janeiro - e mais recentemente no Centro-Oeste, graças à aquisição da MB.

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