O Bradesco divulgou os resultados do terceiro trimestre já de olho em 2010. Na mesma entrevista em que explicou o lucro líquido 5,2% menor que o do mesmo período de 2008, o presidente da instituição, Luiz Carlos Trabuco Cappi, anunciou a ampliação dos prazos de financiamento em várias modalidades, tanto para pessoas físicas quanto para empresas.

Consolida-se, assim, a percepção de que o próximo ano tem tudo para ser o de maior competição na área de crédito na história do País. Um panorama bem distinto do de 2009, quando a crise global fez os bancos reduzirem o apetite pelo risco - e, por tabela, pelo crédito - e elevou fortemente os índices de inadimplência.

São esses os dois fatores que explicam o desempenho mais modesto que nos últimos anos, como mostram os balanços do terceiro trimestre já divulgados. No Bradesco, os ganhos de janeiro a setembro de 2009 ficaram estáveis na comparação com igual intervalo de 2008 - R$ 5,831 bilhões, ante R$ 5,819 bilhões. Na comparação trimestral, o lucro caiu de R$ 1,910 bilhão para R$ 1,811 bilhão.

Embora tenha ficado dentro das estimativas, o resultado não agradou aos investidores: as ações do Bradesco caíram 0,71% na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), ante valorização de 2,03% do Ibovespa, de 3,23% do Itaú Unibanco e de 2,99% do Banco do Brasil.

“A queda dos papéis do Bradesco tem mais a ver com os resultados divulgados pelo Itaú Unibanco na véspera”, disse o analista de bancos da Spinelli Corretora, Jayme Alves. “Esperava-se que os números do banco (Bradesco) surpreendessem para cima, principalmente após a divulgação dos resultados do Itaú Unibanco, que ficaram acima do esperado”, completaram os analistas da Ativa Corretora, em relatório.

O analista Persio Nogueira, da Planner Corretora, encontrou outra hipótese. “Pode ser que os investidores tenham aproveitado os resultados já anunciados para fazer uma redistribuição de suas posições no setor financeiro”, comentou. “Pelas minhas contas, a ação do Bradesco já está com o preço justo. A do Itaú Unibanco ainda tem espaço para avançar.”

A carteira de crédito do Bradesco atingiu R$ 215,5 bilhões ao final do terceiro trimestre, um crescimento de 10,3% em relação à posição de setembro do ano passado. Na comparação com o segundo trimestre deste ano, a expansão foi de 1,3%. “Esses números indicam que nosso guidance (guia) para 2009, de expansão entre 8% e 12%, será atingido”, disse o vice-presidente do banco, Domingos Abreu.

Segundo ele, as expectativas para 2010 ainda não estão fechadas. “Mas é factível falar em uma alta de 20%”, observou. Segundo ele, essa certeza é amparada pelas expectativas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), que, segundo analistas, avançará ao menos 5%.

Esse ambiente significa mais emprego e mais renda, o que diminui o risco de perdas. No Bradesco, o índice de inadimplência acima de 90 dias subiu de 4,6% no segundo trimestre para 5% no terceiro. Em setembro do ano passado, antes de a crise global se aprofundar, o indicador estava em 3,4%.

A expectativa do banco, segundo Trabuco Cappi, é que a inadimplência tenha atingido o pico no terceiro trimestre. De agora em diante, o executivo aposta em estabilidade e até em queda dos índices. Para 2010, ele acredita que voltarão para os níveis pré-crise. “A inadimplência sobe de elevador, mas desce de escada”, comparou.

Esse panorama dá ao Bradesco segurança para, nas palavras do presidente, “ampliar o acesso ao crédito”. Por isso, a instituição vai aumentar os prazos de várias modalidades de financiamento. No Crédito Direto ao Consumidor (CDC), o prazo máximo vai de 36 meses para 48 meses. O crédito pessoal com garantias teve prazo estendido de 36 para 60 meses. Nas pessoas jurídicas, o desconto de duplicatas vai de 150 dias para 210 dias e as linhas de capital de giro, de 24 para 36 meses.

Trabuco Cappi negou que o Bradesco queira recuperar em 2010 o terreno perdido para os bancos públicos em 2009. Segundo ele, independentemente do avanço das instituições controladas pelo governo, a competição no setor, no curto prazo, é “bastante grande”.

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