SÃO PAULO - O pregão de terça-feira terminou com alta na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), leve valorização no dólar e juros futuros mostrando cautela antes da decisão desta quarta-feira do Comitê de Política Monetária (Copom). No campo externo, o foco estava voltado à reunião do Federal Reserve (Fed), banco central americano, que conservou a taxa básica de juro entre zero e 0,25%, conforme o esperado. No comunicado, o Fed manteve inalterado o parágrafo no qual aponta que o juros deve seguir excepcionalmente baixo por um longo período de tempo.

Como em janeiro, a decisão não foi unânime. Thomas M. Hoenig voltou a discordar, apontando que essa sentença sobre juros baixos por longo tempo deveria ser retirada do comunicado, pois ela pode levar a desequilíbrios financeiros e elevar os riscos à estabilidade macroeconômica e financeira no longo prazo.

Em Wall Street, como observado em outras reuniões, o mercado teve um repique de alta após a divulgação da decisão, perdeu fôlego e depois voltou a subir. Assim, no fim da jornada, o Dow Jones marcava avanço de 0,41%, o S & P 500 subia 0,78% e o Nasdaq tinha elevação de 0,67%.

Por aqui, o movimento de compra foi crescente ao longo dia, levando a Bovespa de volta para próximo dos 70 mil pontos. Deixando para trás três dias seguidos de recuo, o Ibovespa terminou com valorização de 1,33%, aos 69.942 pontos. O giro financeiro atingiu R$ 5,182 bilhões.

" O comunicado do Fed não trouxe nenhuma surpresa, foi quase uma repetição do anterior. Houve alterações muito pequenas, como a referência ao mercado de trabalho, que antes estava se deteriorando e agora se estabilizou. Foram mudanças bem pontuais, sem um sinal de quando o Fed pretende apertar a política monetária " , comentou o economista-chefe da SulAmérica Investimentos, Newton Rosa.

Para o economista, a elevação dos juros americanos só deverá ocorrer ao fim deste ano ou no início do próximo, com o Fed de olho em melhoras do mercado de trabalho. Ele notou que também contribuíram para a valorização do Ibovespa novas indicações positivas do front externo.

" Os mercados já abriram com um humor melhor, com a ideia de que um aperto monetário na China não será tão drástico, e com sinalizações de que pode haver soluções para o caso grego que podem evitar o default. Além disso, as commodities subiram, o dólar caiu e todo esse quadro favoreceu o mercado " , apontou.

Passando agora para o câmbio, a formação da taxa não seguiu esse otimismo da Bovespa, nem o aumento no preço das commodities. A cotação também não seguir o comportamento do mercado de câmbio externo, onde o dólar perdeu para o iene e para a libra.

A explicação que sobra é a percepção de remessas superiores às entradas de moeda estrangeira, aliada a uma maior cautela dos agentes, que, segundo o gerente de câmbio da Treviso Corretora de Câmbio, Reginaldo Galhardo, ainda mostram alguma reticência com as questões envolvendo crédito soberano.

O dólar comercial terminou a jornada com leve apreciação de 0,16%, a R$ 1,766 na compra e R$ 1,768 na venda. Na roda de " pronto " da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), o dólar avançou 0,23%, para R$ 1,767. O volume subiu de US$ 64 milhões para US$ 94,25 milhões. Já no interbancário, os negócios permaneceram na casa dos R$ 3 bilhões.

No mercado de juros futuros, a briga segue acirrada entre os defensores de manutenção da Selic em 8,75% e os partidários do início do ciclo de aperto monetário. Embate que só se encerra amanhã, quinta-feira, quando os agentes devem ajustar suas posições depois da decisão de hoje do Copom.

Na visão do economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini, o mercado está forçando a barra quanto a uma alta de juros já na reunião de amanhã. " De fato é necessário subir a taxa, mas não agora " , ponderou.

Agostini observa que é como se a economia brasileira estivesse internada em uma unidade de tratamento intensivo de um hospital. " Não é ao primeiro sinal de melhora que o paciente é colocado para fora. "
De acordo com o especialista, parece que esqueceram que a economia passou por uma recessão e que o PIB caiu 0,2% no ano passado. " Temos que manter os estímulos para ter uma consolidação dessa recuperação " , explicou.

Já o economista-chefe da Máxima Asset, Elson Teles, acredita que o Copom não deve esperar e já tem argumentos suficientes para tirar a Selic dos atuais 8,75% ao ano. " Esperar para que, se tem que subir os juros? "
" Até concordo que a intenção inicial do BC, tanto pelo comunicado da decisão de janeiro quanto pela ata, era esperar mais. Só que o cenário de inflação pirou muito desde janeiro " , disse o economista.

Para Teles, o único argumento de quem ainda acredita em aumento em abril seria o protocolo, ou seja, o BC não teria sinalizado de forma adequada a mudança no viés de política monetária.

No entanto, o economista lembra que o colegiado sempre faz um " seguro " e esta apólice está no parágrafo 28 da ata da reunião de janeiro, que tem a seguinte redação: " Na eventualidade de se verificar deterioração do perfil de riscos que implique alteração do cenário prospectivo traçado para a inflação, neste momento, pelo Comitê, a estratégia de política monetária será prontamente adequada às circunstâncias " .

Ao fim da jornada, na Bolsa de Mercadorias e & Futuros (BM & F), o contrato com vencimento em abril, que respondeu por mais da metade do volume do dia, marcava acréscimo de 0,02 ponto, a 8,84%. Julho de 2010 ganhou 0,01 ponto, a 9,35%. Ainda entre os curtos, janeiro de 2011 também acumulava 0,01 ponto, a 10,52%.

Entre os mais longos, o vértice janeiro de 2012 marcava 11,63%, elevação de 0,03 ponto. Já janeiro marcava estabilidade, a 11,94%.

Até as 16h15, antes do ajuste final de posições, foram negociados 2.333.295 contratos, equivalentes a R$ 227,28 bilhões (US$ 128,81 bilhões), expansão de 73% sobre o volume da segunda-feira. O vencimento para abril de 2010 foi novamente o mais negociado, com 1.733.501 contratos, equivalentes a R$ 172,65 bilhões (US$ 97.85 bilhões).

(Eduardo Campos | Valor)

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