O bom humor no mercado global fez a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) bater ontem novos recordes no ano e deu sequência à trajetória de perdas do dólar ante o real. Com a alta de 2,41%, o principal índice da bolsa brasileira, Ibovespa, rompeu os 66 mil pontos pela primeira vez desde junho do ano passado.

No ano, os ganhos já chegam a 76%. Turbinado pelo vencimento de contratos futuros na BM&F, o volume negociado na Bovespa superou R$ 14 bilhões, o maior de 2009.

A entrada de recursos no País (inclusive para a bolsa) trouxe nova desvalorização da moeda americana, que atingiu ontem a menor cotação desde setembro de 2008, a R$ 1,703. Boa parte dos analistas previa que tais níveis só seriam atingidos no fim deste ano.

Os sinais amplos de recuperação da economia global estão por trás da euforia no mercado de capitais brasileiro, explicam especialistas. O dia de ontem foi marcado por boas notícias em vários lugares. Na China, os números de exportações e importações foram melhores que o esperado. O lucro acima das previsões do banco JPMorgan, bem como o resultado trimestral positivo da Intel, também animaram os investidores.

"Há bons motivos para o otimismo", disse o professor de finanças da Fundação Getúlio Vargas Ernesto Lozardo. Segundo ele, os indicadores econômicos têm mostrado melhora no mundo todo, especialmente nos emergentes, o que dá consistência ao movimento.

Para Roberto Padovani, estrategista do banco WestLB, um dos motivos para a festa na bolsa brasileira é o fato de o Brasil concentrar o fluxo de dólares dos investidores estrangeiros nos últimos meses. Segundo o Banco Central, até o dia 9 de outubro, entraram no País US$ 3,725 bilhões, mais que o dobro de todo o mês de setembro. "O Brasil vai bem por razões locais, como o mercado doméstico forte, mas também porque outros países têm tido desempenho ruim, caso do México e de nações do Leste Europeu."
O fluxo cambial positivo colaborou na desvalorização da moeda americana, que segue uma trajetória de queda em todo o mundo. "Todas as moedas estrangeiras têm ido bem", afirmou uma fonte. Ontem, o índice do dólar - que mede o valor da moeda americana ante uma cesta de seis outras divisas - caiu ao menor nível em 14 meses, e o euro atingiu a máxima também em 14 meses. "A desvalorização só deve parar quando os EUA começarem a subir os juros", disse a fonte. Segundo ele, a ata da última reunião do BC americano (Fed), divulgada ontem, não deu sinais nessa direção.

Analistas apontam para uma continuidade da entrada de dólares no País, com a perspectiva de novas ofertas de ações com potencial de atrair investidores estrangeiros, como as da Cyrela e da Cetip, detalhadas esta semana. Por isso, até o fim do ano, já há apostas de que o Ibovespa possa ultrapassar 70 mil pontos - próximo do pico histórico de 73.516 de maio de 2008. "Deve ocorrer uma realização suave dos lucros nos próximos meses, mas os fundamentos persistem", afirma Padovani.

Na análise do economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, porém, há exagero no atual momento dos mercados. "A economia mundial ainda está num nível de crescimento muito incerto, e as bolsas estão ignorando isso", acredita. "A fraqueza do dólar, que está por trás desse movimento de euforia, não se sustenta a longo prazo."

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