SÃO PAULO - O pregão de quarta-feira terminou sem direção única nos mercados brasileiros. A Bolsa de São Paulo (Bovespa) testou os 70 mil pontos, mas, como das últimas cinco vezes, não sustentou tal patamar.

O dólar seguiu com limitado campo de oscilação, mas garantiu leve baixa. O mercado de juro futuro teve movimentação recorde e ajuste de baixa enquanto era aguardada a decisão do Comitê de Política Monetária (Copom).

Começando pelos juros: a curva futura apontou para baixo, mostrando uma mudança de posições de última hora, já que os agentes vinham elevando as posições compradas nos últimos dias.

" Que fato fundamental fez o pessoal ficar vendedor no dia? " , questionou o sócio da Wagner Investimentos Ltda, Milton Wagner.

Tomando com base um modelo quantitativo que consegue captar as posições dos grandes agentes de mercado, Wagner apontou que, até o fechamento do pregão de terça-feira, as posições de curto prazo estavam fortemente compradas e que, por volta das 11 horas de quarta-feira, aquelas posições tinham virado para o lado oposto, ou seja, os grandes investidores passaram a ficar vendidos.

Atenção hoje ao ajuste depois que o Copom manteve a taxa Selic em 8,75% ao ano. Parece que quem mudou de ideia em cima da hora acabou acertando. Não houve unanimidade, o que é visto por alguns como sinal claro de que, em abril, data da próxima reunião, a Selic sobe. Foram 5 votos pela manutenção e 3 pela alta de 0,5 ponto percentual.

Ao final da jornada de quarta-feira, na Bolsa de Mercadorias & Futuros (BM & F), o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em abril, que respondeu por mais da metade do volume do dia, marcava baixa de 0,04 ponto, a 8,80%. Julho de 2010 perdeu 0,08 ponto, a 9,28%. Ainda entre os curtos, janeiro de 2011 cedeu 0,08 ponto, a 10,45%.

Entre os mais longos, o vértice janeiro de 2012 marcava 11,64%, declínio de 0,03 ponto. Destoando, janeiro de 2013 subia 0,01 ponto, a 11,96%.

Considerando a ajuste final de posições, foram negociados 4.544.750 contratos negociados. O recorde anterior foi de 3.162.332, verificado em 17 de abril de 2008.

Segundo o vice-presidente de Tesouraria do Banco WestLB, Ures Folchini, uma coisa que se discutiu muito é que o Banco Central (BC) na sua configuração atual dá sinais, se comunica com o mercado, mostra a maneira como vai agir e só depois age.

" O que o mercado vê é que essa comunicação ainda não está completa. O Banco Central não sinalizou completamente que vai subir os juros " , disse Folchini, apontando que os participantes do mercado passaram a ponderar essa questão da comunicação e reduzir as apostas de aperto monetário na quarta-feira.

De ordem mais prática, continuou Folchini, parece que os participantes também resolveram fazer contas na quarta-feira e descobriram que mesmo um cenário ruim, ou seja, de alta em todas as reuniões do ano, já está precificado na curva futura.

Passando agora para a Bovespa, o dia começou em com tom positivo. O Ibovespa chegou a subir 1,5%, testando 70.423 pontos, mas a resistência, seja técnica ou psicológica, dos 70 mil pontos acabou falando mais alto. Ao fim da jornada, o índice apontava queda de 0,31%, aos 69.723 pontos. O giro somou R$ 5,41 bilhões.

"Toda vez que a Bolsa chega à faixa de 70 mil a 71 mil pontos, ela perde força e não consegue avançar, tendo em vista a falta de definição no cenário externo e a própria parada do fluxo de investidor estrangeiro. Com isso, o mercado aproveita para realizar lucro", afirmou o assessor de investimentos da corretora Souza Barros, Luiz Roberto Monteiro.

Em Wall Street, os compradores determinaram o rumo do pregão. O Dow Jones subiu 0,45%, marcando o sétimo dia seguido de valorização. Tal sequência não era observada desde agosto de 2009. Ganhos também para o S & P 500 e o Nasdaq, que avançaram 0,58% e 0,47%, respectivamente.

Contribuindo para a percepção de que a taxa de juro continuará baixa nos Estados Unidos, a inflação ao produtor americano caiu 0,6% em fevereiro, revertendo elevação de 1,4% no começo do ano. Já o núcleo do indicador, que tira alimentos e energia da conta, subiu 0,1%.

Olhando para o câmbio, a taxa seguiu andando de lado, ou seja, não se afasta muito de uma banda de oscilação. No caso do dólar comercial, essa faixa vai de R$ 1,760 a R$ 1,780. Para o gerente da mesa de câmbio do Banco Prosper, Jorge Kanuer, será difícil a moeda romper essa linha de forma agressiva. Na visão do especialista, falta firmeza no cenário externo e pelo lado técnico não são feitas grandes posições de compra ou de venda.

Ao fim do pregão desta quarta-feira, o dólar comercial apontava queda de 0,16%, a R$ 1,763 na compra e R$ 1,765 na venda. Ontem, a moeda tinha avançado 0,16%.

Na roda de " pronto " da BM & F, a moeda recuou 0,11%, para fechar, também, a R$ 1,765. O volume subiu de US$ 94,25 milhões para US$ 116,25 milhões. Já no interbancário, os negócios recuaram de R$ 3 bilhões para US$ 2,5 bilhões.

O gerente aponta que o dólar deve vir testar R$ 1,760 novamente, mas que também não seria surpresa se a moeda fosse a R$ 1,780. " Como o mercado é pequeno, qualquer posição maior acaba distorcendo o preço. A tendência num ambiente desses e não ter tendência. "
Os agentes também discutiram ao longo do dia as emissões externas do Bradesco, Vale e Banco Espírito Santo. As operações não tiveram grande influência na formação da taxa. Mas, de acordo com Knauer, são deixam de ser boa notícia, pois mostram demanda por Brasil no exterior. " A porta está aberta para outras emissões. "
Como acontece toda a quarta-feira, o BC mostrou o fluxo cambial parcial. Na segunda semana de março, as saídas ultrapassaram as entradas em US$ 337 milhões.

Por meio de suas compras diárias, a autoridade monetária retirou outros US$ 727 milhões de circulação. Com isso, o saldo líquido do mercado foi negativo em US$ 1,06 bilhão.

Uma curiosidade no câmbio externo, o peso mexicano testou máximas contra o dólar para os últimos 17 meses no pregão de ontem. A moeda subiu 0,62%, para 12,44 por dólar, cotação não observada desde 15 de outubro de 2008.

(Eduardo Campos | Valor)

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