SÃO PAULO - A sexta-feira e o mês de abril ficaram para trás depois de um pregão marcado pela instabilidade tanto por aqui quanto no mercado externo. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) caiu forte e voltou a registrar perda no acumulado de 2010.

SÃO PAULO - A sexta-feira e o mês de abril ficaram para trás depois de um pregão marcado pela instabilidade tanto por aqui quanto no mercado externo. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) caiu forte e voltou a registrar perda no acumulado de 2010. No câmbio, o dólar ganhou do real, mas, apesar das compras do Banco Central, fechou o mês acumulando queda. Já os contratos de juros futuros subiram forte, mostrando pressão do mercado por altas mais acentuadas na Selic. No front externo, o setor financeiro foi a fonte de instabilidade depois que a agência de classificação de risco Standard & Poor´s rebaixou os papéis do banco Goldman Sachs de"manter"para"vender". Fora isso, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos iniciou uma investigação criminal contra o Goldman envolvendo os negócios feitos com títulos hipotecários. O assunto Grécia também estava na agenda e a expectativa era com uma reunião que aconteceu no final de semana. Ficou acertado um novo pacote de ajuda ao país, que agora dispõe de 110 bilhões de euros, sendo 80 bilhões de euros dos países da zona do euro e 30 bilhões de euros do Fundo Monetário Internacional (FMI). A contrapartida é um programa fiscal que visa à redução de 30 bilhões de euros em gastos, o equivalente a 11% do PIB, em três anos. De volta ao pregão de sexta-feira, a Bovespa acompanhou o tom vendedor do mercado externo e caiu 0,66%, para fechar aos 67.529 pontos. O giro financeiro atingiu R$ 7,258 bilhões. Com três quedas em cinco pregões, o Ibovespa perdeu 2,85% na semana. Com tal pontuação, abril fechou com desvalorização de 4,04% para o principal índice da bolsa brasileira. O indicador também voltou a registrar queda no ano, de 1,54%. Em Wall Street, o índice Dow Jones registrou queda de 1,42%, enquanto o Nasdaq recuou 2,02%, e o S & P 500 caiu 1,67%. Na semana, o Dow cedeu 1,8%, enquanto a bolsa eletrônica diminuiu 2,7% e o S & P devolveu 2,5%. Ao contrário do mercado local, o mês foi positivo para os índices americanos. O Dow Jones subiu 1,4%, o S & P teve alta de 1,5%, e o Nasdaq avançou 2,6%. No câmbio, os vendedores pautaram os negócios na parte da manhã em função da formação da Ptax (média das cotações ponderada pelo volume) que liquidará os contratos futuros de maio. Como a posição majoritária era vendida, ou seja, o dólar precisava cair para rentabilizar as posições, os agentes chegar a derrubar a moeda a R$ 1,724. Essa briga ficou concentrada no período da manhã, com os agentes rolando os contratos ou zerando posições. À tarde, o dólar rondava a estabilidade até que o Banco Central fez o segundo leilão de compra no mercado à vista. Com isso, a divisa ganhou rumo de alta e fechou com valorização de 0,34%, a R$ 1,736 na compra e R$ 1,738 na venda. Apesar da apreciação no dia, o dólar cedeu 1,36% na semana e fechou abril 2,41% mais barato. A esse preço, a moeda também passa a registrar queda de 0,28% no acumulado de 2010. Na roda de"pronto"da Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM & F), o dólar subiu 0,39%, para terminar a R$ 1,737. O volume foi de apenas US$ 51,25, um quinto do registrado na quinta-feira. Já no interbancário, o giro estimado ficou em US$ 3,0 bilhões, contra mais de US$ 4,5 bilhões no pregão anterior. A semana foi bastante movimentada no mercado de câmbio, com múltiplas atuações do BC e declarações sugerindo que o Tesouro pode acelerar as compras de moeda. "A ação do governo sugere que ele está preocupado com a queda do dólar, por isso das intervenções no mercado. Mas uma leitura mais atenta mostra uma atuação em busca de dólar mais baixo", a avaliação é do diretor da NGO Corretora, Sidnei Moura Nehme. Parece paradoxal, mas o ponto defendido por Nehme é que o Banco Central, ao continuar comprando moeda em quantidades superiores ao fluxo, força os bancos a ficar com posições vendidas, ou seja, carregar apostas pró-real. Com isso, o BC estimula indiretamente a queda da moeda, pois as instituições vão trabalhar pela queda do preço do dólar para rentabilizar essas posições. "No mercado de câmbio brasileiro nem tem tudo o que aparenta ser é o que realmente é", afirmou o especialista. Segundo Nehme, nunca o BC ou o governo vão assumir isso, mas ao deixar o real se valorizar o ganho imediato se dá pelo lado da inflação. O que, no final das contas, alivia a necessidade de um aperto muito forte na taxa de juros. Na visão de Nehme, esse quadro pode se agravar ainda mais se o Tesouro vier a mercado comprar moeda e o BC voltar a utilizar os swaps cambiais reversos, instrumento que na prática significa compra de dólares no mercado futuro. Encerrando com os juros futuros, a sexta-feira foi movimentada na BM & F e os contratos longos, que vinham perdendo prêmio tiram forte movimento de alta. Sem indicadores de peso na agenda local que justificassem tamanha alta, o que os agentes perceberam foi uma disputa entre Banco Central e mercado, após a alta da Selic. De acordo com o especialista, os agentes viram que o Banco Central não tinha saída para retomar as rédeas do mercado, pois qualquer posição adotada resultaria em alta nos prêmios. A alta de 0,75 ponto dada na quarta-feira, apenas estimulou mais apostas de que em junho o Copom terá que aumentar o passo para um ponto. Se o BC desse uma alta ainda mais forte, de 1 ponto, a interpretação seria de que o cenário é ainda pior, e os investidores pediria mais prêmio. Se a saída fosse pelo meio ponto, ficaria a ideia de decisão política, o que também levaria a aumento de prêmio. "Os agentes estão forçando um ambiente ruim. Não existe uma degradação de cenário que justifique tamanha inclinação da curva", diz o especialista."Em 35 anos de mercado nunca vi uma coisa assim." Ainda de acordo com o operador, essa puxada de alta acabou resultando na"zeragem"de posições vendidas no mercado. O que serve de gatilho para novos aumentos nos prêmios, pois os agentes que estavam vendidos são"obrigados"a ficar comprados. A ata do Copom é um ótimo canal de comunicação para tentar reverte essa situação, diz o especialista."O BC pode tentar controlar essa situação no discurso, mas o mercado só sente um órgão, que o bolso", disse o operador. Outra saída para o BC, diz o especialista, é lançar mão de medidas administrativas, como contingência de crédito e aumento de compulsório. Ao longo da semana, o mercado de juros futuros cai colocar no preço a produção industrial de março, a ata do Copom e o IPCA de abril. Antes do ajuste final de posições na BM & F, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para maio de 2010 recuava 0,05 ponto a 9,30%. Junho de 2010 teve acréscimo de 0,01 ponto, a 9,37%. Julho de 2010 subiu 0,03 ponto, a 9,68%. Ainda entre os curtos, janeiro de 2011, o mais líquido do dia, avançou 0,12 ponto, atingindo 11,13%. Entre os longos o ajuste foi mais acentuado, o DI para janeiro de 2012 teve alta de 0,16 ponto, a 12,32%. Já o contrato para janeiro de 2013 avançou 0,10 ponto, a 12,58%, e janeiro 2014 acumulou 0,08 ponto, para 12,55%. Até as 16h15, foram negociados 1.847.790 contratos, equivalentes a R$ 170,57 bilhões (US$ 98,47 bilhões), quase três vezes menos do que o registrado na quinta-feira. O vencimento janeiro de 2010 foi o mais negociado, com 580.710 contratos, equivalentes a R$ 54,07 bilhões (US$ 31,21 bilhões). (Eduardo Campos | Valor)

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