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Trabalhar mais que em 2008 para ganhar menos que em 2008. Essa é a previsão para este ano dos consultores que pesquisam remuneração executiva em todo mundo.

Os bônus pagos aos executivos devem ter redução média de 20% e os salários vão ficar estagnados.

"Os bônus que estão sendo pagos agora se referem aos resultados de 2008, e a maioria das empresas cumpriu as metas", diz Fabiano Costa, consultor sênior da Mercer, que faz pesquisas mundiais de remuneração. "Porém, para 2009, o quadro vai mudar, mesmo nas empresas que estão no azul."

Ele diz que, nos Estados Unidos, 70% das empresas vão mudar o plano de bônus e os incentivos de curto prazo e 73% mudarão os planos de longo prazo. "Há um certo consenso de que haverá redução média de 20% nos bônus. No Brasil, as mudanças podem ser menos drásticas, mas acontecerão."

Os setores mais afetados no País, para ele, serão o financeiro e o de mineração. "Nesses, já vemos diferenças", conta o consultor, sem citar empresas. E não são os únicos. O resultado aquém do esperado fez com que a AmBev, líder na venda de cervejas no País - com 67,4% do mercado -, optasse por não pagar aos executivos os bônus referentes a 2008.

No exterior, várias empresas que também não obtiveram bons resultados em 2008 tornaram pública a decisão de não pagar bônus aos executivos. O Goldman Sachs não pagou bônus a seus diretores, que receberam apenas o salário anual de US$ 600 mil. O Merril Lynch pagou metade dos bônus.

"Você via gente com desempenho mediano ganhando bônus. Com o mercado aquecido, era fácil cumprir metas", diz o consultor do Hay Group, Leonardo Salgado. "Isso acabou. As metas em 2009 serão mais difíceis de atingir, pois a economia está retraída."
Para ele, atitudes como as de Allan Mulally (CEO da Ford), Rick Wagoner (GM) e Robert Nardelli (Chrysler), que afirmaram aceitar um salário de US$ 1, são simbólicas. "Eles não querem arriscar serem lembrados como as pessoas que quebraram ícones da economia."

Para Salgado, os bônus têm uma parcela de culpa na crise econômica. "A pressão dos acionistas por ganhos era crescente e, para cumprir metas e embolsar bônus, papéis podres eram passados para frente, sem critério. Os executivos criaram essa bolha, forçados pelos acionistas", diz. "Foi uma crise causada pela ganância. E agora as empresas vão ter de dar o devido valor ao risco."

Segundo o diretor da Michael Page, Rodrigo Forte, a preocupação atual dos executivos não é mais a perda dos bônus. "Isso vai acontecer. O temor agora são as demissões, que chegaram ao alto escalão." A Sadia, por exemplo, anunciou a demissão de 350 funcionários de gerência ou superiores.

Ele conta que o número de currículos inscritos no banco de dados da consultoria triplicou nos últimos dois meses. "Não são só os desempregados, mas também os empregados tentando buscar vagas em setores mais estáveis." As propostas de emprego, no entanto, não oferecerão grandes aumentos em relação a cargos anteriores. "Aqueles saltos de 20% na remuneração não vão mais existir. Vão ter de trabalhar muito, se quiserem ganhar um pouco." As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.