A crise hipotecária americana, desencadeada em meados de 2007, já provocou prejuízos de US$ 3,56 trilhões nas bolsas de valores da América Latina e dos Estados Unidos este ano. Levantamento feito pela Economática com 1.

991 empresas de capital aberto mostra que o valor de mercado das companhias despencou 19%, de US$ 18,32 trilhões para US$ 14,76 trilhões.

As empresas negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) foram as que mais perderam valor em termos porcentuais. No ano, o preço das companhias recuou 28%. O segundo pior desempenho ficou com a bolsa peruana (20,3%).

As empresas americanas tiveram desvalorização de 19,2%. Mas, pelo tamanho do mercado e pela quantidade de companhias negociadas na bolsa, o rombo é maior. Dos US$ 3,56 trilhões, 87% da queda no valor de mercado corresponde às companhias listadas nas bolsas dos EUA. Outros 9,5% são do Brasil.

O prejuízo, no entanto, está longe de indicar o fim da crise. "Pelas últimas notícias, a expectativa é de que a turbulência persista nos próximos meses e o quadro piore", avaliou o administrador de investimentos Fabio Colombo. Segundo ele, estatisticamente, a bolsa brasileira poderia despencar até 35 mil pontos (ontem a Bovespa fechou em 48.416 pontos). "Mas isso seria uma catástrofe."

Segundo Colombo, com a alta dos últimos anos, muitos investidores acabaram exagerando nas posições no mercado acionário. Agora, com a tendência de baixa, não há muita saída: "Ou sai e realiza o prejuízo ou continua, tendo a possibilidade de perder mais ou recuperar." Quem decidir manter suas posições, no entanto, terá de ter sangue-frio para resistir aos solavancos previstos para a bolsa.

"Estamos apenas no início de uma crise de liquidez que pode durar até dois anos", diz o professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV/Eaesp) Ernesto Lozardo. Para ele, o mundo terá um período de fusões e aquisições de bancos que pode romper 2008. O próximo ano será o momento de fazer o acerto de contas dessas compras.

Lozardo acredita que o prenúncio de toda essa crise ocorreu ainda na era de Alan Greenspan no comando do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). "Além de deixar a taxa de juros num nível muito baixo, ele não regulamentou o mercado de hipotecas nos Estados Unidos. Não houve governança corporativa adequada para evitar essa catástrofe."

Hoje, destaca ele, a engrenagem que sustentou o crescimento do mercado americano nos últimos anos, o crédito, está parando. "A família americana já deve cerca de US$ 12 trilhões, quase um PIB (Produto Interno Bruto) americano." Tudo isso tem provocado a desaceleração da economia dos Estados Unidos, da Europa e do Japão. "Não por acaso já estão comparando a crise atual com a crise de 1929", destaca Colombo.

O Brasil não deve sair ileso dessa desaceleração, apesar de os últimos números do PIB terem surpreendido o mercado. "Mas a economia real é muito mais lenta. Só deveremos sentir os efeitos de uma desaceleração mundial dentro de aproximadamente seis meses."

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