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A disparada dos preços das commodities no primeiro semestre fez com que a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) tivesse um dos melhores desempenhos do mercado acionário global no período. Agora, a bolsa brasileira sofre com o movimento contrário.

A expectativa de desaceleração das principais economias do mundo - Estados Unidos, Europa e Japão - derrubou as cotações de produtos como petróleo, cobre e ouro nas últimas semanas.

A transmissão dessas quedas para a Bovespa é imediata. O principal termômetro do mercado de ações do Brasil (Ibovespa) derreteu 8,5% nos últimos dez pregões. Ontem, perdeu 3,51% e fechou a 55.609 pontos. No ano, a queda alcança 12,96%.

O mercado acionário brasileiro ocupa o terceiro lugar entre os que tiveram as maiores perdas na América Latina em julho, segundo o Morgan Stanley Capital Index (MSCI) LatAm, que mede o desempenho na região. O MSCI Brasil caiu 10,48% em julho, ficando à frente apenas do MSCI Argentina, que perdeu 19,31%, e do MSCI Peru, com desvalorização de 16,30%.

"Existe uma dúvida no mercado sobre um eventual estouro da bolha de commodities", afirmou o sócio-diretor da Advisor Asset Management, Andre Delben Silva. "As estrelas brasileiras, como Vale e Petrobras, que sobreviveram muito tempo à crise iniciada no meio do ano passado (subprime), têm caído fortemente por isso."

Ontem, as ações preferenciais (PN) da Petrobras perderam 5,27% e fecharam cotadas a R$ 32,69. Os papéis ordinários (ON) recuaram 4,8%, para R$ 40,25. As ações ON da Vale deslizaram 7,32%, para R$ 41,14, e as PNA, 7%, para R$ 35,75.

O barril de petróleo para setembro registrou baixa de 2,95%, para US$ 121,41, na Bolsa Mercantil de Nova York. Os contratos de cobre para setembro caíram 3,87% e fecharam a US$ 3,4400 por libra-peso e os contratos futuros de ouro para dezembro caíram 1,05%, para US$ 907,90 a onça-troy.

Silva não acredita que a hora do "estouro" da bolha de commodities tenha chegado. "Mas não é uma questão de se, mas de quando", observou. "Quando há um período muito longo de forte expansão, o investidor pensa que será sempre assim. Mas, quando vira a expectativa, fica muito pessimista."

Tanto ontem quanto nos últimos dias, o movimento de saída da Bovespa foi comandado pelos estrangeiros. Parte da leve alta do dólar ontem (0,06%, para R$ 1,563), aliás, foi atribuída ao movimento de saída desses investidores do País.

Na avaliação de Ivan Guetta, gestor de renda variável da GAP Asset Management, há uma correção em andamento no mercado global de commodities. Ele frisa, no entanto, que não vê tendência prolongada de queda. "Os gargalos de oferta ainda existem, bem como a forte demanda de emergentes, notadamente da China."

Um exemplo prático dessa desaceleração é a expectativa da GAP para o reajuste do preço do minério de ferro no ano que vem. A gestora de recursos projeta uma alta de 20%. Visto isoladamente, é um porcentual razoável. No entanto, comparado aos dos últimos anos, é bem mais modesto. Em 2008, por exemplo, a Vale repassou para seus clientes um reajuste médio de 70%. Essa diferença, explica Guetta, tem de se refletir nas ações da companhia. Mesmo assim, ele já vê uma cotação convidativa para o papel.

Silva, da Advisor, lembra que, para piorar a situação da bolsa brasileira, a expectativa para a economia doméstica é de desaceleração, em decorrência do novo ciclo de alta da taxa básica de juros. Expansão mais fraca significa resultados mais modestos para as empresas.

É por isso, segundo ele, que não apenas as ações ligadas às commodities recuaram fortemente na Bovespa ontem. Os papéis ON da construtora Gafisa, por exemplo, perderam 6,75%. As ações preferenciais do Bradesco caíram 5,14%, apesar de o resultado da instituição no segundo trimestre ter ficado dentro das previsões dos analistas.

Nesse cenário, nota Silva, muitos investidores buscam refúgio nos papéis de empresas ligadas à prestação de serviços públicos. Ontem, a maioria das ações do Ibovespa que fecharam no azul era de companhias com esse perfil. Sabesp PN, por exemplo, subiu 1,03%. As informações são do O Estado de S. Paulo

*C/ Claudia Violante

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