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SÃO PAULO - O governo da Bolívia rejeitou ontem uma mediação do Brasil na crise política que abala o país e que provocou ontem suas primeiras vítimas fatais. Uma missão brasileira integrada pelo número 2 do Itamaraty, o embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, e pelo assessor especial Presidência, Marco Aurélio Garcia, desistiu de viajar ao país após La Paz ter sinalizado que não queria se ver forçada pela comitiva a um diálogo com a oposição.

Ontem, pelo segundo dia seguido, a crise interna afetou o fornecimento de gás boliviano ao Brasil. Um trecho de um gasoduto interno na Bolívia foi sabotado, supostamente por grupos de oposição. A empresa Transierra, que opera o gasoduto, disse que, entre a noite de quarta e a madrugada de ontem, uma válvula de segurança na região do Chaco foi manipulada , o que reduziu o fornecimento de gás ao Brasil pela metade. À tarde, porém, a empresa e a Petrobras disseram que a válvula fora reparada e o fluxo, retomado. Os estragos causados na quarta-feira em outro incidente no duto continuavam ontem comprometendo o envio de 10% do gás destinado ao Brasil.

Pela primeira vez desde que os protestos contra o presidente Evo Morales recrudesceram há duas semanas, choques entre grupos pró e contra o governo provocaram mortes. Segundo a agência estatal de notícias, oito camponeses pró-governo foram mortos no departamento de Pando. Vinte pessoas ficaram feridas. La Paz acusou o governo de Pando pelo que classificou de massacre . Na quarta-feira, cerca de 80 pessoas ficaram feridas em choques em Tarija. Autoridades brasileiras avaliam que há risco claro de mais choques violentos e mortes nos próximos dias.

A situação é muito complicada neste momento e aponta para um conflito civil , disse uma fonte do governo brasileiro ao Valor. O que se vê já é quase uma guerra civil de baixa intensidade. Os distúrbios devem ficar circunscritos às regiões governadas pela oposição, pois nas demais há amplo apoio a Morales. Depredações, invasões, saques a prédios públicos e invasões de plantas de gás têm ocorrido na área mais rica do país, nos departamentos de Santa Cruz, Tarija e Pando. As ações são comandados pelos denominados grupos cívicos - opositores ferrenhos de Morales e alinhados com os governadores de oposição.

Em Santa Cruz, já há sinais de desabastecimento Falta, por exemplo, gás de cozinha. As comunicações com a cidade estão prejudicadas após ataques a estatal Entel.

Na capital, La Paz, a movimentação ontem era de sindicatos e organizações de cocaleiros e camponeses que cobravam ações da polícia e do Exército contra os ataques e prometiam reagir em defesa do governo. O porta-voz do Ministério de Governo, Javier Macias, disse ao Valor que entidades sociais se reuniriam em Cochabamba na noite de ontem para determinar medidas de ataque a Santa Cruz, como por exemplo um bloqueio das estradas . Um dos objetivos dessas entidades seria minar a realização da Expocruz, uma feira internacional que, em tempos normais, movimenta a cidade e que está programada para os dias 19 e 28 . Se isso ocorrer, pode resultar em conflito maior , disse Macias.

A missão de Brasília tinha planejado ir a La Paz justamente para tentar costurar uma aproximação de Morales com os governadores de oposição e esvaziar a crise que parece cada vez mais explosiva. O governo Morales sentiu que, ao aceitar receber uma missão internacional, seria pressionado a negociar. Mas o governo boliviano não quer ceder e por isso disse ? não ? à missão , afirmou a autoridade brasileira ouvida pelo Valor.

Pinheiro Guimarães e Garcia se reuniriam também com os governadores de oposição. Por ora, o Brasil deixa de poder ajudar diretamente , disse a fonte, que também descreveu a oposição como intransigente em suas posições.

Opositores querem que Morales revogue uma medida que transfere ao governo central os royalties arrecadados com o gás. Os recursos estão financiando programas sociais criados por Morales e que são altamente populares no país. A oposição também rejeita a nova Constituição, elaborada pelo governo e que deve ser submetida a referendo. Por seu lado, Morales não reconhece os projetos de autonomia aprovados este ano pelas regiões governadas pela oposição.

(Marcos de Moura e Souza | Valor Econômico)