Em audiência no Congresso, o presidente do Fed, Ben Bernanke, demonstrou apoio a um segundo plano de estímulo fiscal nos Estados Unidos. Uma vez que a economia vai continuar frágil por vários trimestres e há risco de uma desaceleração prolongada, parece-me apropriado que o Congresso pense em um pacote fiscal neste momento, disse Bernanke, em seu primeiro endosso público à medida.

A Casa Branca vinha resistindo a um novo pacote para estimular o consumo, mas o apoio de Bernanke dá força aos democratas, que querem injetar até US$ 300 bilhões na economia. No início do ano, o Congresso aprovou um pacote de estímulo de US$ 168 bilhões, sendo US$ 100 bilhões em restituições de impostos de US$ 600 a US$ 1,2 mil a cada americano.

Os democratas querem que o novo pacote inclua investimentos em infra-estrutura, extensão do seguro-desemprego, cupons de alimentos, assistência para aquecimento das residências, além de recursos para cidades e Estados com dificuldades para financiar suas atividades, para que não sejam obrigados a demitir funcionários. Esse pacote seria uma forma de ajudar a economia real, já que o plano de recapitalização dos bancos prevê apenas uma ajuda a mutuários, de forma vaga.

O Congresso aprovou um pacote de US$ 700 bilhões de resgate do sistema financeiro, que prevê compra dos ativos podres em poder dos bancos. Na semana passada, o Tesouro anunciou que vai usar US$ 250 bilhões desse pacote para comprar participações acionárias em bancos, como forma de recapitalizar as instituições e fazer com que elas voltem a conceder crédito. Um estímulo fiscal seria uma maneira de atingir diretamente a classe média americana e reativar o consumo.

A Casa Branca se mostrou mais receptiva à idéia. A porta-voz Dana Perino afirmou ontem que o governo Bush está "aberto" a um plano de estímulo, dependendo do alcance, e iria consultar Bernanke. Mas ela fez a ressalva de que o governo está focado na implementação do pacote de US$ 700 bilhões. A Casa Branca discorda da eficácia de algumas medidas que os democratas querem incluir no plano de estímulo.

Segundo Bernanke, as perspectivas para a economia ainda estão tão incertas que é difícil determinar o tamanho, a composição e o momento ideal para o plano de estímulo. Ele disse apenas que o Congresso deveria formular um plano que aja quando a economia estiver no ponto de maior estagnação. Bernanke fez um retrato sombrio da economia. "A atividade econômica provavelmente vai ficar abaixo de seu potencial por vários trimestres." Para muitos economistas, os EUA já entraram em uma recessão, então seria adequado adotar o estímulo fiscal o mais rápido possível.

O presidente do Fed não detalhou que tipo de medidas seriam recomendáveis. Mas disse: "Se resolver adotar um pacote fiscal, o Congresso deveria incluir medidas para aumentar o acesso dos consumidores, mutuários e empresas ao crédito. Essas medidas seriam particularmente eficazes para promover crescimento econômico e criar empregos".

Bernanke demonstrou cautela ao dizer que "qualquer programa deve limitar, dentro do possível, os efeitos de longo prazo sobre o déficit estrutural do orçamento do governo". Mas muitos economistas já se conformaram com o aumento do déficit em 2009, por causa dos vários programas de gastos do governo para contrabalançar a desaceleração econômica. "É politicamente adequado criticar os gastos do governo e exigir responsabilidade fiscal; mas, neste momento, aumento nos gastos do governo é exatamente a recomendação dos médicos", escreveu o Prêmio Nobel Paul Krugman na semana passada.

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