SÃO PAULO - Bélgica, Holanda e Luxemburgo vão investir 11,2 bilhões de euros (US$ 16,3 bilhões) no Fortis, uma das maiores instituições financeiras da Bélgica e Holanda. A nacionalização parcial do banco foi anunciada ontem à noite em Bruxelas por Yves Leterme, primeiro ministro belga.

O objetivo é restaurar a confiança no Fortis, após suas ações terem recuado 35% na semana passada em meio ao agravamento da crise americana.

O governo belga vai comprar uma fatia de 49% do banco no país, por 4,7 bilhões de euros, informou o governo ontem à noite. Já a Holanda pagará 4 bilhões de euros por uma fatia similar no braço holandês do banco, enquanto Luxemburgo fará uma empréstimo de 2,5 bilhões de euros conversível em 49% da subsidiária local do banco. O Fortis também venderá sua fatia no ABN Amro, adquirida em 2007 em um consórcio formado por Santander e Royal Bank of Scotland. Mas o comprador ainda não foi identificado. Maurice Lippens, chairman do banco, deve deixar o cargo.

O final de semana foi marcado por intensas negociações e as autoridades econômico-financeiras já estavam tendendo para uma estatização parcial do Fortis. A perspectiva de uma venda de todo ou parte do banco para o francês BNP Paribas ou o holandês ING foi se reduzindo ao longo das horas do domingo.

O Fortis tornou-se o mais recente foco dos temores dos investidores sobre a estabilidade do setor financeiro europeu, na esteira dos recentes colapsos em Wall Street.

O Fortis é, de longe, a maior instituição financeira européia impactada por uma crise de confiança do tipo que levou ao colapso diversos bancos americanos. A turbulência levantou questões sobre a capacidade de os governos europeus coordenarem o socorro a uma instituição cujos ativos são muitas vezes maiores do que o Produto Interno Bruto (PIB) belga. Um malogro em dar sustentação ao Fortis poderá desencadear uma perda de confiança mais ampla em outras instituições financeiras européias.

Na sexta-feira, o Fortis anunciou planos para acelerar um programa de venda de ativos no montante de 10 bilhões de euros e anunciou a nomeação de Filip Dierckx como seu executivo-chefe - sendo esse seu segundo novo executivo-chefe em três meses. Mas, executivos bancários disseram que a escala da perda de confiança no Fortis impunha a necessidade de uma solução de alcance bem maior.

Com a injeção de recursos dos governos da Bélgica, Holanda e Luxemburgo, a idéia é fortalecer as reservas de capital do banco, vulneráveis devido a seu papel, no ano passado, na aquisição, por 71 bilhões de euros, de uma parte do banco holandês ABN Amro.

Um cronograma prevê que no ano que vem o Fortis assuma integralmente o controle das operações do ABN nos setores bancário de atacado e, na Holanda, de banco varejista, mas dúvidas sobre sua capacidade de financiar a aquisição contribuíram para suas dificuldades. O ING, que manteve conversações com o ABN no início do ano passado, mas desistiu, era o mais provável comprador da participação do Fortis no ABN.

O BNP estava interessado nas operações do Fortis na Bélgica. Mas o BNP via com receio os ativos no balanço patrimonial do Fortis, especialmente sua carteira de títulos garantidos por hipotecas, e procurou obter garantias governamentais para que o adquirisse integralmente. Tal iniciativa seria politicamente controvertida, e ontem à noite executivos bancários disseram que o governo belga provavelmente preferiria estatizar temporariamente o Fortis, em vez de apoiar uma aquisição por uma instituição estrangeira.

A Bélgica está desesperada para impedir a emergência de pânico, porque o Fortis é o maior empregador no setor privado do país, e é o gestor de contas correntes e apólices de seguros de 1,5 milhão de famílias belgas, ou quase metade da população.

O Fortis é alvo de intensa atenção desde que o banco surpreendeu investidores, em junho, ao anunciar planos para captar 8 bilhões de euros por meio de uma emissão de ações e a venda ativos. A decisão, que resultou na demissão de Jean-Paul Votron, executivo-chefe do Fortis, deflagrou uma tempestade de protestos de acionistas que tinham ajudado a financiar a participação de 24 bilhões de euros do banco no negócio envolvendo o ABN. Isso também comprometeu a credibilidade da equipe gestora do Fortis.

(Valor Econômico, com agências internacionais)

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