BRASÍLIA - As remessas de lucros devem continuar em rota de crescimento, contribuindo para elevar o déficit nas transações correntes do país com o exterior. Mas o Brasil tem uma situação externa melhor em relação a outros emergentes, com acúmulo de reservas e poupança interna bruta em crescimento. Portanto, com um quadro de menor dificuldade que no passado, reiterou hoje o Banco Central (BC).

No segundo estudo do ano sobre a evolução da sustentabilidade dos indicadores externos, a autoridade monetária aponta no Relatório Focus que apesar das indicações de que o país voltará a ter a conta corrente negativa em 2008, após cinco anos seguidos de superávits, há um novo perfil de financiamento.

O BC aponta que, na relação com seus pares emergentes, o Brasil tem uma situação mais favorável. Enquanto o déficit em conta corrente acumulado em 12 meses até junho equivalia aqui a 1,32% do Produto Interno Bruto (PIB), dez países citados no estudo registraram média de 2,4% do PIB.

O déficit médio sobe a 3,3% do PIB quando se exclui a Rússia, que registrava superávit de 5,9% do PIB na mesma comparação. Na média entre 1947 e 2007, a conta corrente brasileira registrou déficits de 1,75% do PIB.

Ao contrário de décadas passadas, quando o déficit brasileiro era financiado por dívida externa, agora a base são investimentos estrangeiros diretos (IED) e em carteira (títulos de renda fixa e ações). O lado negativo, diz o estudo, é que o aumento dos investimentos também eleva a exigência de sua remuneração. Além dos lucros e dividendos relativos ao IED, aqueles incidentes sobre investimentos em carteira também subiram, acompanhando o movimento do estoque, diz o BC.

O estoque de IED saiu de US$ 101 bilhões em 2001 para US$ 328 bilhões em 2007, por exemplo. Os investimentos em ações foram multiplicados por dez no período, atingindo US$ 364 bilhões, sendo que as ações listadas em bolsas de valores do exterior atingiram US$ 198 bilhões, volume maior que o saldo de investimentos estrangeiros em ações na Bovespa.

Segundo o BC, com as perspectivas de continuidade do crescimento econômico, tanto o IED quanto os significativos investimentos em ações de empresas brasileiras devem representar aumento de despesas no balanço de pagamentos, ou seja, mais remessas de lucros e dividendos, atualmente em níveis recordes e a pressionar o déficit em conta corrente.

Em contrapartida, o documento cita que a dívida externa total, que equivalia a 29,9% do PIB na média anual histórica (desde 1947), encontra-se estável em 15% do PIB. Em conseqüência, os encargos da dívida caíram para 2,9% do PIB, ante 5,6% do PIB na média entre 1990 e 2002, sendo que em 1999 representavam 10,4% do PIB.

As reservas internacionais, hoje na casa dos US$ 200 bilhões, equivalem a 326,5% do serviço da dívida a vencer em 12 meses. Entre 1999 e 2003, por exemplo, as reservas não cobriam nem a metade desse serviço.

As dinâmicas positivas da receita de exportações e do PIB, associadas à redução das amortizações e estabilidade das despesas brutas de juros, têm permitido que a remuneração do passivo sob a forma de dívida externa venha se tornando menor, relativamente à geração de receita externa ou ao tamanho da economia brasileira, cita o BC.

Outra questão apontada é o fato de o déficit na conta corrente não estar acompanhado de redução na poupança nacional bruta, como no passado, pois isso traria maiores dificuldades de sustentação. Esse foi o caso dos déficits ocorridos no período até 2002, cita o BC. Na atual conjuntura, o déficit tem sido acompanhado por estabilidade da poupança nacional.

O estudo conclui que, em todas as comparações, os indicadores de sustentabilidade externa apontam hoje para maior solidez das contas externas do país, na comparação com a década anterior.

(Azelma Rodrigues | Valor Online)

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