Depois de enviar uma mensagem confusa em março, quando manteve a taxa básica de juros (Selic) em 8,75% ao ano, o Banco Central brasileiro parece ter decidido recuperar a reputação de um dos mais ortodoxos do mundo. Ao menos é o que se depreende da decisão de iniciar o ciclo de altas do juro com uma puxada de 0,75 ponto porcentual.

Depois de enviar uma mensagem confusa em março, quando manteve a taxa básica de juros (Selic) em 8,75% ao ano, o Banco Central brasileiro parece ter decidido recuperar a reputação de um dos mais ortodoxos do mundo. Ao menos é o que se depreende da decisão de iniciar o ciclo de altas do juro com uma puxada de 0,75 ponto porcentual. A decisão ortodoxa foi a culminância de um processo heterodoxo de coordenação de expectativas, depois das incertezas lançadas em março. Não há notícia de um outro período em que o presidente do BC, Henrique Meirelles, tenha falado mais não pelas atas, nem pelos atos, mas pela boca e pelos gestos. Meirelles falou ao público até mesmo no primeiro dia de reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), na tarde desta terça-feira. Falou também, conforme relatos variados, com o presidente Lula, a quem teria convencido de que seria conveniente, no Copom de abril, dar uma "paulada" nos juros. Conveniente, claro, para um ambiente eleitoral mais favorável ao governo, no segundo semestre. As apostas numa alta maior, de 0,75 ponto, estimuladas pelas falas de Meirelles, cresceram ao longo da última semana. O fato é que, desde que o mundo começou a se recuperar da pior crise econômica global em 80 anos, nenhum BC havia elevado tanto o juro em uma só tacada. Primeiro país a apertar a política monetária no pós-crise, a Austrália, por exemplo, o fez com elevações de 0,25 ponto a cada vez. Lá, a taxa básica saiu de 3% no início do segundo semestre do ano passado para os atuais 4,25%. No mundo dos Brics, a Índia fez até agora duas puxadas no juro básico, ambas de 0,25 ponto porcentual. A taxa foi de 3,25% para 3,75% ao ano. Na China, o governo elevou o juro de 1,25% para 1,38% ao ano além de apertar um pouco os depósitos compulsórios, medida, aliás, já adotada pelo BC brasileiro em março. O mais ortodoxo dos bancos centrais até a decisão do BC brasileiro era o de Israel, que puxou o juro básico uma vez em 0,50 ponto além de outras duas altas de 0,25 ponto. Em um mundo carregado de incertezas, como o atual (vide os graves problemas fiscais em diversos países europeus), o risco que se apresenta é semelhante ao do segundo semestre de 2008: ali, o BC brasileiro elevou a Selic a despeito de todas as dúvidas que pairavam no ar com a crise do subprime. Elevou os juros no meio de um trimestre em que a economia recuou espantosos 14%, em termos anualizados. E teve de voltar atrás, no trimestre seguinte.

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