Há um descompasso entre as mudanças nas expectativas de inflação e a decisão do Banco Central (BC) de alterar o comportamento da Selic, a taxa básica de juros da economia brasileira, segundo levantamento da consultoria Austin Rating.
O estudo, que analisou todas as reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom) desde 2003, quando Henrique Meirelles assumiu a presidência do BC, coloca em debate um assunto controverso em relação à demora da autoridade monetária em combater a inflação.
A conclusão do estudo da Austin é que, cada vez que o Copom decidiu mudar o curso da taxa de juros – uma alta ou baixa da taxa Selic -, o mercado financeiro apontou para a mesma direção na projeção de inflação com uma antecedência de 3,7 reuniões, em média, em relação à ação dada posteriormente pelo BC.
Evolução da taxa básica de juros e das projeções para o IPCA em 12 meses
“O Banco Central foi reativo em relação às expectativas de inflação”, diz o economista-chefe da Austin Rating, Alex Agostini. Para ele, o BC deveria ter uma postura mais ativa, agindo para antecipar as tendências de inflação e coordenar as expectativas para os índices de variação de preços.
Procurada, a assessoria de imprensa do Banco Central não concedeu entrevista para comentar o assunto.
Na reunião mais recente do Copom, realizada na semana passada, o BC reduziu o ritmo de aumento do juro, mas deu continuidade ao ciclo de alta iniciado em abril ao elevar a taxa em 0,5 ponto percentual, para 10,75% ao ano. A ata da reunião do Copom será divulgada na manhã desta quinta-feira.
Desde 2003, o Copom promoveu quatro ciclos de redução na taxa Selic e três de elevação, nas 73 vezes em que se reuniu. Em todos esses movimentos, a ação do BC foi sequencial, com a repetição da decisão de alta ou queda do juro em reuniões consecutivas. A partir deste comportamento, a análise da Austin se concentrou no momento em que o Copom iniciou cada um destes ciclos.
Um entendimento semelhante tem Pedro Parente, ex-ministro do Planejamento e ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda. “O BC deve olhar a convergência das expectativas futuras de inflação e não o dado passado”, afirmou o atual presidente da Bunge, em evento da Câmara Americana de Comércio (Amcham), na semana passada.
Enquanto alguns economistas consideram que o BC demora em agir diante das expectativas de mercado para a inflação, outros entendem que esse “atraso” é normal.
Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central, afirma que o BC deve aguardar a confirmação das tendências para a inflação antes de elevar ou reduzir o juro básico. “A expectativa de inflação é um dos indicadores que devem ser observados, mas não o único. Ela pode apontar em direção contrária a outros dados”, afirma.
Loyola ressalta que o Copom deve ficar atento às projeções, mas que não deve, necessariamente, seguir as orientações do mercado. “A função dele é controlar a inflação e não as expectativas de inflação.”
O ex-diretor do BC Carlos Thadeu de Freitas concorda. “É muito difícil controlar as expectativas de inflação. O Banco Central não tem bola de cristal.”
As projeções de inflação são confiáveis, afirma Carlos Thadeu, porém, elas oscilam muito no curto prazo e, por isso, sua avaliação requer atenção. Além de analisar a percepção do mercado financeiro, o BC também tem modelos próprios para mensurar o risco inflacionário.
Em caso de indefinições ou falta de consenso, manter o juro básico pode ser a melhor opção, afirma o ex-diretor da instituição. “Quando não se enxerga muita coisa, o melhor a fazer é não mexer em nada.”
Esta tem sido uma solução recorrente nesta gestão do BC. Nas 73 reuniões analisadas, em 23 delas a taxa de juros não foi alterada, enquanto as projeções para a inflação futura ficaram estáveis apenas em seis reuniões nos últimos oito anos. Em 18 reuniões, o juro subiu, ante 24 altas nas expectativas.
Na maioria dos encontros, o Copom cortou o juro _ 32 vezes_, enquanto o mercado financeiro apresentou expectativas menores para a inflação durante 41 reuniões.
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