Os bancos japoneses, durante muito tempo criticados por sua falta de criatividade financeira, saíram em socorro de Wall Street no meio da crise, mas esta parceria estrangeira pode se ver complicada pelo choque cultural, advertiram nesta quarta-feira analistas consultados pela AFP.

Os banqueiros japoneses não são estranhos às crises. Eles acabam de se recuperar da debandada dos anos 1990 quando, afundados por créditos ruins, eles tiveram de recorrer aos cofres do Estado.

Agora, no momento em que a crise mundial do crédito ofusca a paisagem financeira, o Mitsubishi UFJ Financial Group vai comprar até 20% do Morgan Stanley, enquanto a corretora Nomura Holdings assumiu as atividades do Lehman Brothers na Ásia e na Europa.

Os investidores aplaudiram estas transações. Na Bolsa de Tóquio, a ação do Mitsubishi UFJ subiu 4,2% nesta quarta-feira, e a da Nomura, 5,2%.

"Os bancos japoneses vêm enfrentando a estagnação de seu mercado nacional. Ao investir em bancos ocidentais, abrirãom mercados e oportunidades de crescimento", comentou Jeremy Hall, especialista das ações japonesas na Henderson Global Investors em Cingapura.

"A dificuldade será a execução. As empresas japonesas têm tendência a pagar um preço muito elevado pelas aquisições no exterior. Os problemas culturais entrarão na linha de produção. As organizações japonesas funcionam de forma muito diferente dos bancos ocidentais. Será interessante ver como cada um fará para viver com o outro", disse.

Até o venerável Goldman Sachs, poupado até agora pelo cataclismo financeiro, pretende segundo a imprensa vender uma parte de seu capital ao banco japonês Sumitomo Mitsui Financial Group.

Os bancos japoneses estão aproveitando uma oportunidade única de crescer no exterior. Mas a maneira como gerenciam suas aquisições suscita preocupações.

O Mitsubishi UFJ, principalmente, "enfrentará grandes dificuldades", comentou Shinichi Ina, analista do Crédit Suisse.

"A cultura de empresa do Mitsubishi UFJ que, mesmo segundo os critérios dos bancos japoneses, é conservadora, diverge da cultura de negócios dinâmica e movida pelos lucros dos bancos de investimentos americanos", escreveu em nota a seus clientes.

"Colocar duas culturas de negócios tão diferentes assim juntas num grupo pode gerar sinergias. Mas isso também inclui riscos consideráveis de ineficácia", previu.

Os analistas destacaram que os bancos japoneses têm pouca experiência nos domínios onde os gigantes de Wall Street são reis.

"Os bancos japoneses nunca fizeram na realidade bancos de investimentos", explicou Naoko Nemoto, analista da Standard and Poor's.

"Elas não têm experiência. Eles podem tentar aprender, mas não é um bom período para começar", observou.

As instituições financeiras japonesas perderam um pouco de dinheiro na crise dos créditos de alto risco americanos ("subprime"). Mas suas estratégias ultraprudentes lhes pouparam das tempestades em seus parceiros ocidentais.

Enquanto os bancos americanos ou europeus recolhiam enormes lucros nos últimos anos apostando em instrumentos financeiros exóticos e produtos derivados de altos riscos, os estabelecimentos japoneses se aventuravam menos.

"Os bancos japoneses não foram conservadores por inteligência. Eles foram conservadores porque não tinha outra escolha, e venceram sua crise dos anos 1990", lembrou Hall.

"A questão não é saber se eles são inteligentes, ou se tiveram chance. A questão é que eles estão agora em posição de força", acrescentou.

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