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Aversão a risco eleva procura por seguro para crédito a exportação

Com a propagação da crise financeira dos Estados Unidos para o resto do mundo, os exportadores brasileiros ficaram mais cautelosos e passaram a procurar com mais freqüência seguro de crédito para linhas do comércio exterior. Na outra ponta, com a aversão ao risco disseminada e o aumento da demanda, a resposta foi imediata: taxas mais altas e diminuição dos prazos de financiamento, que poucas vezes ultrapassavam o período de um ano.

Agência Estado |

Mesmo assim, as seguradoras já amargam o pagamento de indenizações a contratos que não foram honrados.

Atuam nesse mercado no Brasil cinco empresas, todas de origem internacional: Coface, Euler Hermes, Crédito y Caución, CesceBrasil e Mapfre - o setor é regulamentado pela Superintendência de Seguros Privados (Susep), subordinada ao Ministério da Fazenda. De acordo com a Susep, as receitas de prêmios emitidos entre setembro de 2007 a agosto de 2008 somaram R$ 87,884 milhões, com o crescimento dos prêmios de 51% em agosto sobre igual período do ano anterior. No mundo, a expansão foi bem menor, de 7%. No mesmo intervalo, a proporção dos sinistros reconhecidos sobre os prêmios emitidos, segundo cálculos da Coface, foi de 57%, maior do que a taxa de 50% de agosto de 2007 a setembro do ano passado.

Em condições normais, os exportadores podem recorrer a três tipos de instrumentos para se protegerem de um calote: pagamento antecipado, carta de crédito e o seguro. "Neste momento de crise, é muito difícil obter uma carta de crédito, e o pagamento antecipado só ocorre se a importadora estiver capitalizada, então as empresas estão buscando mais o seguro", explica o vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro.

Para se ter uma idéia, a maior empresa do ramo, a Coface, registrou um aumento de 30% na consulta do serviço de julho a setembro em relação ao trimestre anterior, de acordo com o diretor comercial da empresa, Daniel Nobre. Os números absolutos não são divulgados pelas companhias. Mais nova no mercado doméstico, a Crédito y Caución aportou no Brasil praticamente junto com o início da crise financeira mundial, em junho do ano passado. Mesmo assim, de acordo com o presidente da empresa no Brasil, Jesus Victório Cano, o número de propostas submetidas à análise este ano dobrou ante o início das operações em 2007. "Estamos percebendo que, desde que começou a crise nos Estados Unidos, as empresas estão procurando mais o serviço de crédito porque a situação das compradoras no exterior está mais complicada", afirma Cano, referindo-se a dados mundiais.

A constatação dos dois executivos é de que o instrumento está se disseminando. Numa primeira fase, o aumento da busca por esse seguro no Brasil deu-se justamente por conta da melhora da economia global, que proporcionou a diversificação dos destinos das exportações nos últimos anos, até então muito concentradas em Estados Unidos, Europa e Mercosul. O que era uma oportunidade de negócios, se transformou também numa incerteza em relação à fonte pagadora, que era o desconhecimento desses "novos mercados". Daí a busca pelo hedge.

"Quando um exportador procura o seguro de crédito é porque ele tem dificuldade de acesso de informação no exterior, não sabe seu processo regulatório", explica Nobre. "A cobrança internacional é cara e a fidedignidade das informações é difícil", continua, acrescentando que, além do seguro em si, que protege contra o risco comercial, o instrumento serve como um hedge para riscos políticos.

Crédito mais caro

Para Castro, da AEB, atualmente há um aumento visível dos dois tipos de risco. Dessa forma, não há como escapar: o crédito ficou mais caro. "É preciso analisar a relação custo/benefício da operação e isso só pode ser feito caso a caso, não há uma regra." Mesmo sendo um dos poucos instrumentos acessíveis neste momento, o vice-presidente da Associação alertou para o fato de que até mesmo o seguro costuma secar, principalmente no caso de países que possam vir a enfrentar um problema econômico no futuro. Seria um bom exemplo dessa situação o conjunto de países da América Latina, já que a região é dependente das commodities, que estão em queda.

De acordo com dados do Banco Central, o volume de operações cambiais somou este ano, até a segunda semana de outubro, US$ 153 bilhões, dos quais US$ 36 bilhões em ACCs; US$ 38 bilhões de pagamento antecipado e US$ 78 bilhões das demais operações. "As ações do BC claramente estão ajudando, somos dependentes delas. Se não fossem as medidas, não teriam mais operações", avalia Castro. Ele refere-se às iniciativas da autoridade monetária de irrigar o sistema e, em especial, a Medida Provisória 443 que concede linhas de financiamento a bancos, com garantias, desde que os recursos sigam para o comércio exterior.

Ainda que todos os agentes do setor estejam detectando um aumento da busca pelo seguro, Castro salienta que sua representatividade dentro do mercado ainda é muito pequena, em torno de 5% do total. Cano admite que essa cultura ainda pouco se expandiu no País e relatou que, até o momento, a maior procura pelo instrumento é de empresas que vendem para os Estados Unidos. "A crise vai representar uma mudança da economia global, de tudo o que conhecemos até o momento", avalia. Nobre, da Coface, confidenciou que a exposição de risco da empresa (volume de risco que é assegurado) para linhas que contemplem importadores dos Estados Unidos foi reduzida em 20% no trimestre entre junho a agosto. Na Argentina, a diminuição foi ainda maior, em 30%, já que além do risco comercial, teme-se o risco político.

Evidentemente, segundo Cano, quando o exportador vende para países afetados pela crise há um temor maior com relação à inadimplência. "As taxas aumentam, o limite de risco se adapta à situação do país em que a empresa está localizada." Nobre ressalta que o apetite por risco, inclusive o da seguradora, diminui nestas circunstâncias. "Ficamos mais rigorosos, mais conservadores, mais criteriosos em relação a risco político e comercial. Mas a demanda, mais do que nunca, é explosiva neste momento", afirma. A maior demanda é por linhas de curto prazo, com extensão de até 365 dias. Assim, se a atividade é basicamente de curto prazo, dificilmente subirá agora com crise. As empresas consultadas foram consensuais ao citarem o setor da construção civil, em especial o segmento de mármores e granitos, como os maiores demandantes do seguro.

O uso do seguro é baseado em três pilares. O primeiro seria o da prevenção, que está relacionada ao temor de uma solvência creditícia. O segundo, é o da indenização, no caso de ocorrer um sinistro. Já o terceiro está relacionado à gestão de cobrança, quando a empresa seguradora deve reclamar a dívida do cliente. Em todos os países em que a Coface atua (um total de 63), segundo o seu diretor, houve um aumento do número de indenizações da ordem de 55% nos primeiros três meses deste ano ante o mesmo período de 2007. Nobre lembra que, graças ao período de bonança imediatamente anterior ao atual, o setor pôde ampliar o seu colchão de reservas para enfrentar um período mais turbulento, como o de agora.

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