O fracasso das negociações da Organização Mundial do Comércio (OMC) demonstrou mais uma vez o abismo que separa países ricos dos países em desenvolvimento sobre os meios de liberalizar o comércio mundial, e agora nuvens mais pesadas de incerteza pairam sobre o futuro da Rodada de Doha.

Após nove dias de discussões, os representantes dos 153 membros se separaram na terça-feira sem acordo, adiando por tempo indeterminado a conclusão da Rodada de Doha lançada em 2001.

As discussões aconteceram essencialmente dentro do "grupo das sete" principais potências comerciais (EUA, União Européia, Japão, China Índia, Brasil e Austrália), apesar de algumas conversas terem sido realizadas na "câmara verde" que reuniu 30 países.

"É uma pena e é decepcionante que as negociações não tenham ido além do grupo dos sete", lamentou nesta quarta-feira o ministro do Comércio de Lesotho, Popane Lebesa.

Os africanos foram os grandes perdedores porque nenhuma das propostas de redução dos subsídios agrícolas dos países ricos vai ser aplicada.

"Um dos principais elementos da crise alimentar, os subsídios, vai continuar nos prejudicando", acrescentou Lebesa, dizendo que a rodada de negociações de Doha deve ser relançada na primeira ocasião.

Esta mesma crise alimentar foi o que os americanos e os indianos invocaram para trocar acusações pelo fracasso das negociações.

As discussões tropeçaram no mecanismo de salvaguarda especial (SSM) que permite aos países em desenvolvimento aumentar suas tarifas aduaneiras diante da alta desenfreada das importações agrícolas em seus países. Os indianos queriam um piso muito baixo para poder acionar este mecanismo, e os americanos, um piso muito elevado.

"A ironia é que o debate sobre o SSM aconteceu num contexto de crise alimentar mundial", destacou a representante americana do Comércio, Susan Schwab, nesta quarta-feira, estimando que a aplicação das reivindicações indianas teria aumentado os preços dos alimentos nos mercados relacionados.

"Trata-se de favorecer os interesses comerciais ou proteger as condições de vida dos agricultores", respondeu o ministro do comércio indiano, Kamal Nath.

Depois de comprovado em 2003 durante o fracasso da conferência da OMC em Cáncun, no México, o fosso entre países ricos e em desenvolvimento apareceu novamente em Genebra.

Dentro do grupo dos sete, a Índia, seguida da China, se opuseram aos EUA sobre a questão do mecanismo de salvaguarda, mas também sobre o algodão, os chineses pediram uma forte baixa, ou até a eliminação, dos subsídios americanos a este produto.

O Brasil ficou no fogo cruzado, dividido entre seu papel no G20 com a Índia e a China, e o desejo de obter mais acesso aos mercados para seus produtos.

Ao final, não há nenhum novo calendário para a continuidade das negociações. A representante americana, Susan Schwab, questionou nesta quarta-feira os meios de preservar algumas conquistas, sem no entanto dar resposta, mas reafirmando sua fé no sistema multilateral de negociações.

O diretor geral da OMC, Pascal Lamy, disse que é preciso deixar a poeira baixar. É sem dúvida difícil de olhar longe neste estado em que as coisas estão. "Os membros da OMC devem se perguntar honestamente se querem juntar os cacos e como fazê-lo".

O comissário europeu do Comércio, Peter Mandelson, afirmou nesta quarta-feira, uma retomada do processo no outono, após um verão de reflexões. (Hemisfério Norte)

Mas alguns colocam em questão o processo multilateral de negociações.

"É preciso sem dúvida rever a questão de uma organização do debate entre 153 países sobre todos os assuntos comerciais. Ela se tornou inatingível", declarou nesta quarta-feira a secretária de Estado francesa do Comércio, Anne-Marie Idrac.

jld/lm

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