SÃO PAULO - A presença global tem permitido que a Atlas Copco, empresa sueca fabricante de equipamentos para construção e implantação de infra-estrutura, enfrente melhor a crise financeira internacional. A companhia, que comprou a fabricante de rolos compressores e máquinas para construção de estradas Dynapac, afirmou que compensa perdas em mercados desenvolvidos, afetados pela crise, com a expansão dos negócios em países emergentes, como o Brasil.

O problema é que, mesmo com essa mudança de foco nas atividades, o crescimento nos emergentes não é suficiente para contrapor a queda nos desenvolvidos, onde o volume de negócios é muito superior, afirma o presidente da divisão de Equipamentos de Construção de Estradas da Atlas Copco-Dynapac, Claes Ahrengart.

Independentemente disso, a companhia anunciou hoje ter obtido, no terceiro trimestre deste ano, o melhor desempenho de sua história, com uma expansão de 29% em seu lucro líquido no período, que chegou a 2,42 bilhões de coroas suecas (US$ 313,3 milhões). A expectativa de crescimento mais limitado mesmo em mercados emergentes e de retração nos países desenvolvidos, porém, levou a uma retração nas ações da companhia, que chegou a mais de 9,7%, na bolsa de Estocolmo.

"Temos uma estrutura que nos permite reduzir o ritmo de produção sem ter de interrompê-la totalmente. E, mesmo que paremos por um dia, não teremos com isso um prejuízo assim tão grande", afirma Ahrengart. "Nossa filosofia é de manter nossas operações sempre, pensando no longo prazo. Por isso, durante a Guerra dos Bálcãs, nosso escritório na Iugoslávia esteve sempre aberto e, no Zimbábue, temos que enviar comida por caminhão para nossos funcionários", acrescentou.

Esse compromisso, afirma, pode ser ilustrado pelo investimento, feito no ano passado, na própria Dynapac, quando já se sentiam sinais de uma possível crise. "No mês passado, abrimos uma fábrica na Índia e estamos atualmente aumentando nossa produção no Brasil", afirma o executivo. "Nossa posição global, com presença em mais de 150 países, é uma espécie de hedge (proteção) natural contra uma crise como essa, que está mais concentrada nos países desenvolvidos", afirma.

O sueco, porém, é realista e acredita que as limitações no mercado de crédito podem - e deverão - afetar a companhia indiretamente, através dos clientes que terão menos acesso a recursos para investimentos de infra-estrutura.

Na Europa, por exemplo, a companhia já começou a trabalhar para reduzir custos há cerca de um ano e, dessa forma, estar mais bem preparada para enfrentar o período de crise. Como resultado, cerca de 250 pessoas já foram demitidas em suas fábricas européias.

No Brasil, para o presidente da Dynapac, Paulo de Almeida Barros, porém, o efeito não deverá ser tão intenso, especialmente se o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) estiver em condições de manter o financiamento de projetos estratégicos.

"O grande divisor de águas no Brasil é o BNDES. Se o governo irrigar bem o banco, o setor de infra-estrutura deverá sofrer pouco", afirma o executivo. "Há consenso de que o Brasil tem que manter suas obras de infra-estrutura, que são muito necessárias. Assim, se o BNDES atuar para alimentar o setor, haverá sofrimento, é claro, mas nada de muito drástico", acrescentou.

Segundo Barros, a produção de máquinas no país dobrou entre 2004 e 2008, sendo que no ano passado foi alcançado o recorde de equipamentos fabricados: 640 unidades. A taxa média anual de expansão, diz, é de 30% e, mesmo que uma crise reduza em entre 20% e 30% os negócios da companhia, ela voltará para o nível de 2007, "que foi um ano muito bom".

A aposta no país, segundo o executivo, é de longo prazo. Tanto que, para o final do ano que vem, pretende inaugurar a produção de um novo modelo de máquinas no país e, em 2010, a produção de ainda outra. Segundo ele, os investimentos não são muito altos, pois envolvem apenas uma adaptação das linhas de montagem já existentes, embora ainda não tenha concluído essa avaliação.

(José Sergio Osse | Valor Online)

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