As empresas brasileiras estão em uma posição de caixa confortável até o final de 2008, apesar do cenário de aperto de crédito no mercado internacional, aponta estudo elaborado pela estrategista da Ativa Corretora, Mônica Araújo. Olhando-se mais à frente, contudo, o aumento substancial dos investimentos programados indica a necessidade de novas captações.

A analista destaca os setores que merecem mais atenção, por terem nível de endividamento superior à média: Açúcar e Álcool, Alimentos, Shopping Centers, Concessões Rodoviárias, Papel e Celulose, Saneamento e Telecomunicações.

O aprofundamento recente da crise financeira nos Estados Unidos, com a concordata do banco de investimentos Lehman Brothers e o socorro do governo norte-americano à seguradora AIG, reduziram a disponibilidade de recursos no exterior para o mundo corporativo.

"Caso a liquidez continue restrita e o custo de captação mantenha tendência de forte alta, as empresas poderão promover revisão desses investimentos, o que acarretaria também em revisão do potencial de crescimento dos resultados", afirmou Mônica em relatório nesta sexta-feira, acrescentando que mudanças corporativas no planejamento de 2009 resultarão em alterações nas estimativas para o desempenho das companhias.

Para este ano, o universo de empresas na Bovespa acompanhadas pela Ativa mostra uma necessidade de captação líquida de R$ 1,2 bilhão até dezembro, montante "em nível controlado", segundo Mônica. A cifra é influenciada por Petrobras e Vale, devido ao forte programa de investimentos de ambas. Se excluídas as duas maiores empresas brasileiras, o conjunto restante das companhias teria recursos sobrando frente à necessidade até dezembro, "o que lhes confere uma folga para iniciar 2009".

Tendo como base os balanços das empresas no segundo trimestre, o caixa total das empresas que a Ativa acompanha estava em R$ 93,789 bilhões no encerramento de junho. Isso se compara a vencimentos de dívidas até o final de 2008 de R$ 24,579 bilhões, a investimentos de R$ 61,392 bilhões e a outros desembolsos de R$ 9,056 bilhões no período, que juntos superam em R$ 1,237 bilhão o dinheiro no caixa das companhias. Isso implica em uma relação dívida líquida/Ebitda, na média, de 0,9 vez. Sem Vale e Petrobras, há uma sobra de recursos de R$ 12,830 bilhões até dezembro.

Setorialmente, a indústria de Açúcar e Álcool é a que aparece mais alavancada no estudo, com relação dívida líquida/Ebitda de 4,7 vezes em junho deste ano, devido à geração de caixa muito baixa no último trimestre por causa dos preços dos produtos e de problemas no início da safra.

Em seguida aparece o segmento de Shopping Centers, com relação dívida líquida/Ebitda de quatro vezes. "O setor tem passado por forte movimento de consolidação, em especial BR Malls, que é a empresa com estratégia mais agressiva, e por isso apresenta nível de endividamento mais elevado. Porém, captações recentes devem ser suficientes para fazer frente à necessidade de curto prazo, e a conjuntura atual certamente reduzirá o movimento de consolidação", afirmou a estrategista da Ativa.

Já os setores de Alimentos e de Papel e Celulose aparecem com relação dívida líquida/Ebitda de 2,8 vezes e de 2,3 vezes, respectivamente. Os principais fatores que explicam a alavancagem superior à média das empresas brasileiras são o elevado volume de investimentos e o desembolso para aquisições recentes. No caso de Papel e Celulose, o fato de o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) ser fonte importante de capital para a indústria tranqüiliza a Ativa sobre a habilidade de financiamento do setor no médio prazo.

Conforme a estrategista da Ativa, o estudo não considerou a geração de caixa esperada para o segundo semestre com o objetivo de expressar ao máximo a necessidade de recursos por parte das empresas. "Mas ressaltamos que, dado o nível de atividade da economia brasileira, ainda deveremos observar uma forte geração de caixa das empresas no segundo semestre de 2008", disse Mônica.

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