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Artigo: Ccrise grega, democracia x especuladores

A Grécia pode estar agindo corretamente para reviver nossa economia. Mas talvez o nosso sucesso não seja do interesse de todos.

Agência Estado |

Para que sejamos bem-sucedidos, a comunidade internacional precisa enfrentar a ameaça da especulação e da insuficiente regulamentação nos mercados financeiros - uma ameaça que paira não apenas sobre a Grécia, mas sobre toda a economia global.

Encaro essa ameaça todos os dias enquanto administramos as consequências desta crise, pois o problema imediato que enfrentamos não está em lidar com a recessão, mas em pagar os encargos de nossa dívida. Apesar das profundas reformas que estamos promovendo, negociantes e especuladores empurraram as taxas de juros sobre os títulos da dívida grega para níveis nunca antes vistos.

Muitos acreditam que rumores maliciosos, repetidos infinitamente e amplificados de maneira tática, tenham sido usados para manipular as condições normais de mercado para nossos títulos. Um dos resultados parciais disso é o fato de a Grécia ter de pagar atualmente taxas de juros sobre seus empréstimos quase duas vezes mais altas do que aquelas pagas por outros países da União Europeia.

Assim, quando solicitamos um empréstimo de 5 bilhões por cinco anos, temos de pagar juros adicionais de 725 milhões em relação às condições oferecidas à Alemanha, por exemplo. A implementação de nosso programa de reformas será muito difícil se o ganho obtido com nossas medidas de austeridade for engolido por taxas de juros proibitivas.

Essa questão toda traz consigo uma horrível sensação de déjà vu. As mesmas instituições financeiras que foram resgatadas à custa do contribuinte estão agora lucrando fortunas com o infortúnio da Grécia - enquanto esses mesmos contribuintes pagam o preço sob a forma de amplos cortes em seus salários e nos serviços sociais que lhes são oferecidos.

Especuladores inescrupulosos estão lucrando bilhões todos os dias com a aposta numa moratória grega. Tudo isso pode parecer uma repetição de eventos recentes, especialmente aos olhos dos americanos que pagaram um altíssimo preço para resgatar seus bancos em apuros.

Ao contrário dos banqueiros, a Grécia não está pedindo um resgate - e muito menos uma bonificação. Na verdade, cortamos os salários de cada funcionário do governo. Meu próprio ordenado foi reduzido de maneira significativa. E as bonificações distribuídas nos bancos gregos sofreram corte de até 90%.

A economia global é interdependente. Todos sofremos ou avançamos juntos dependendo de como lidamos com esses riscos. Há passos que devem ser adotados tanto imediatamente quanto no longo prazo para contrabalançar as forças que estão lucrando com apostas na moratória, que produzem os próprios resultados.

Em nossa economia global moderna, e principalmente nas crises, as expectativas desempenham um papel poderoso. Muitos números reais são determinados pelo que se passa na cabeça das pessoas - os chamados "instintos animais", como sugerido por Keynes. É por isso que os amigos da Grécia e os amigos da democracia devem e precisam ajudar na superação desta crise.

Para mim, trata-se de um desafio às nossas instituições democráticas.

Um governo eleito, promovendo extensas reformas com o consentimento de sua população, vê-se prejudicado por poderes concentrados num mercado sem regulamentação - poderes que vão além dos de qualquer governo individual.

É verdade que a Grécia corresponde a apenas 2% do PIB da União Europeia.

Mas nossas condições econômicas podem ter um impacto muito maior do que o sugerido por essa fração. Uma crise no euro poderia provocar um efeito dominó, elevando o custo dos empréstimos para outros países com grandes déficits e aumentando a volatilidade nas taxas de bônus e nas taxas de câmbio em todo o mundo. Um pequeno problema poderia se tornar o estopim do colapso num sistema já volátil.

Devemos recordar que a Grande Depressão nos Estados Unidos foi seguida de uma segunda recessão em 1937-38, que desaprumou a recuperação mundial e prolongou aquela crise. Se a crise europeia passar por uma metástase, isso poderia criar uma nova crise financeira global com implicações tão graves quanto a crise que se originou nos EUA há dois anos.

Para os EUA, um euro fraco significa um dólar em ascensão. Isso, por sua vez, implica um aumento no déficit comercial americano - coisa que não vai ajudar a economia americana a se recuperar.

Se a UE - ainda a maior parceira comercial dos EUA - se mostrar vacilante, as consequências para a Europa seriam palpáveis.

É por isso que Europa e EUA devem dar um basta aos especuladores que valorizam apenas o lucro imediato, sem nenhuma consideração pelas consequências disso no sistema econômico como um todo - para não mencionar as consequências humanas dos empregos perdidos, lares executados pelos bancos e pensões dizimadas.

Essas manipulações do mercado - que estavam no coração do colapso dos bancos - ainda são consideradas práticas legítimas. É difícil compreender como deixamos isso acontecer.

O bom senso determina - e a regulamentação atuarial garante - que não se pode contratar um seguro contra incêndio para a casa de seu vizinho, e então incendiar a casa para ficar com a indenização. Mas é exatamente o que acontece no mercado de credit default swaps. É esse o tormento que levou os bancos a executar os lares de milhões de americanos. É esse o tormento que assombra à Grécia e a todos nós.

Mas, se Europa e EUA agirem em conjunto para reforçar a regulamentação financeira global - e finalmente garantir o cumprimento dessa regulamentação -, então poderemos conter tais atividades.

Considero um sinal positivo o fato de as autoridades americanas terem ordenado que alguns especuladores preservem os registros de suas negociações em euros. As autoridades devem prosseguir nessas investigações.

Desde a década de 1980, testemunhamos uma sucessão de crises financeiras mundiais - o colapso da dívida do terceiro mundo, a crise das poupanças e empréstimos nos EUA, a crise financeira asiática, as bolhas da alta tecnologia e das moradias, e agora a pior recessão global desde a década de 1930. A globalização - que prometia tanto e abriu tantas portas para aqueles com a sorte de serem dotados de formação avançada e boas carreiras - trouxe também novas desigualdades e novos riscos.

Esta crise, portanto, é uma oportunidade para corrigir muitos dos excessos da globalização. Ela pede profundas mudanças estruturais em nossas instituições globais e em nosso sistema de governança global.

Não podemos nos dar ao luxo de desperdiçar outra oportunidade de implementar as mudanças fundamentais que a realidade atual exige.

Medidas decisivas e coletivas, acompanhadas de uma regulamentação do mesmo tipo, são urgentemente necessárias se quisermos que o crescimento econômico global seja sustentável. Precisamos de uma coordenação global entre as políticas monetárias. Se deixarmos que as forças do mercado ditem os termos sozinhas, é quase certo que nossa recuperação econômica cairá num retrocesso.

Junto com meus colegas europeus, adotamos uma iniciativa comum para fortalecer a regulamentação financeira, em especial no que tange à especulação. Precisamos de regras claras para as chamadas operações a descoberto e para os credit default swaps. Espero que uma resposta positiva dos americanos do outro lado do Atlântico ajude a trazer essa iniciativa ao G-20. É hora de fazermos os mercados trabalharem em nosso favor, e não o contrário.

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