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BUENOS AIRES - O secretário de Agricultura, Javier de Urquiza, foi a primeira baixa importante no gabinete da presidente Cristina Fernández de Kirchner, depois da derrota sofrida por seu governo semana passada no Senado. Após uma disputa de quatro meses com os agricultores para aumentar os tributos sobre as exportações de grãos, um projeto de lei do governo sobre o assunto foi derrubado no Senado com o voto contrário do próprio vice-presidente de Cristina, Julio Cleto Cobos, que desempatou a votação - na Argentina, o vice-presidente preside o Senado.

Desprestigiado, Urquiza foi afastado das negociações com o setor (do qual, teoricamente, ele seria a maior autoridade) desde que os ruralistas iniciaram as manifestações em março.

Para o lugar dele estava praticamente confirmado ontem o nome do atual presidente do Instituto Nacional de Tecnologia Agropecuária (Inta, que tem no país um papel equivalente ao da Embrapa no Brasil), Carlos Cheppi. A nomeação viria com uma sinalização direta ao setor agropecuário do país. Segundo o jornal Página 12 , Cheppi já teria apresentado a Cristina um plano para elevar a produção de grãos do país dos atuais 95 milhões de toneladas para 148 milhões no período 2008-2015.

Se a presidente Cristina Kirchner adotar o plano de Carlos Cheppi, será um sinal de retomada da iniciativa no tema. Uma política agrícola com maior amplitude e de longo prazo era uma das demandas dos ruralistas, além de que os tributos sobre exportação de grãos (também chamados retenções ) não fossem aumentados. No entanto, eles esperavam ser chamados para ajudar a formular o plano, o que nunca aconteceu.

Desde março até o mês passado, quando o decreto que aumentava as retenções foi encaminhado como projeto de lei para aprovação do Congresso, os agricultores provocaram quatro locautes com interrupção das estradas, desabastecimento e alta de preços ao consumidor.

O plano apresentado pelo novo secretário, de acordo com o jornal Página 12 , baseia as perspectivas de crescimento em uma nova política agrícola de estímulo ao aumento da produtividade, uso da tecnologia, maior racionalidade no uso da terra e da água e fortes investimentos em infraestrutura. Além do aumento de 55% na produção de grãos, o plano prevê um crescimento de 48% na produção de lácteos, 42% de carne, 50% em frutas e dobrar a produção de hortaliças.

Engenheiro agrônomo, 53 anos, nascido em Mar del Plata, Cheppi tem 20 anos de carreira no Inta e teria sido indicado pelo ministro do Planejamento e Infra-estrutura, Julio de Vido, um dos funcionários que Cristina herdou do gabinete de seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner. Hugo Biolcati, vice-presidente da Sociedade Rural Argentina (SRA), uma das quatro entidades que lideraram o movimento dos ruralistas, disse ontem que não estava surpreso com a saída de Urquiza, já que ele estava afastado da discussão sobre as retenções. Sobre Cheppi, o vice-presidente da SRA afirmou apenas que é um homem que conhece o tema e o setor .

Além de Urquiza, foram demitidos também dois funcionários ligados ao vice-presidente Julio Cobos: o subsecretário de Combustíveis, Alejandro Rodríguez, e o diretor de Refinaria e Comercialização de Combustíveis, Eduardo Moreno.

A imprensa argentina tem publicado que novas mudanças serão feitas no ministério de Cristina e que a presidente também está programando um pacote de medidas econômicas para relançar seu governo, abalado pela crise com os agricultores.

Além de perder a maioria no Congresso, a presidente Cristina Kirchner sofreu forte queda de sua popularidade, de 56% em janeiro para 20% este mês.

Os ruralistas fizeram ontem uma homenagem ao vice-presidente Julio Cobos, que garantiu a eles a vitória sobre o governo com seu voto não que desempatou a votação no Senado. Foi na abertura da Expo Rural, a maior feira anual do setor no país. O primeiro animal a entrar na exposição, um touro da raça Shorton, foi apelidado de Cleto , o segundo nome de Julio Cobos.

(Janes Rocha | Valor Econômico)

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