BUENOS AIRES - A queda de mais de 40% do comércio neste início de ano reabriu a temporada de conflitos comerciais entre Brasil e Argentina com novas barreiras não tarifárias levantadas dos dois lados. Só este mês, a Argentina colocou entraves à importação de três produtos em que o Brasil é o principal provedor: multiprocessadores de alimentos, pneus e produtos de alumínio.

" Nossas exportações para o Brasil são muito importantes e queremos preservá-las, mas a prioridade da Argentina é proteger a produção e o emprego " , disse o secretário de Indústria, Fernando Fraguio, ao fim da primeira reunião do ano para o monitoramento do comércio bilateral Brasil-Argentina junto com seu par brasileiro, o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, indústria e Comércio Exterior, Ivan Ramalho.

O processo contra os multiprocessadores tem como alvo a filial brasileira de uma multinacional holandesa, que elevou suas vendas à Argentina a partir do Brasil em mais de 300%, disse o subsecretário de Política e Gestão Comercial do Ministério da Produção, Eduardo D. Bianchi. No caso dos pneus, as importações estão sendo submetidas a licenciamento não-automático, processo que implica uma análise mais detalhada dos produtos na aduana, o que atrasa substancialmente a entrada no mercado. Para os produtos derivados de alumínio foi criado um grupo de monitoramento para analisar toda a cadeia de valor dos produtos comprados do Brasil.

Ivan Ramalho disse que foi informado dos processos e reiterou a Fraguio que, no caso das licenças não-automáticas contra pneus, pelas regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) a medida tem que ser extensiva a todos os países, não pode ser dirigida a um único, e pediu que a Argentina trate os produtos brasileiros como preferenciais. No entanto, o Brasil é o principal alvo da medida, já que fornece 54% dos pneus importados pela Argentina.

Os dois pontos-chaves da disputa comercial bilateral este ano, entretanto, são o setor automotivo e o trigo, produtos número um e dois da extensa lista dos que compõem a pauta de exportações e importações dos dois lados.

No caso do trigo, o Brasil depende do produto argentino para suprir a demanda interna que chega a 8 milhões de toneladas, dos quais apenas 2 milhões são colhidos no país. Em 2008, dos 6 milhões de toneladas importados, 4,2 milhões vieram da Argentina, cuja safra foi de 15,5 milhões de toneladas. Este ano, a Argentina terá uma quebra de quase metade de sua produção, devido a fatores internos (política agrícola e seca) e a tendência é que não haja trigo para exportar ao Brasil.

Ramalho disse que o governo brasileiro ainda não tem informações oficiais sobre essa quebra e tem de esperar esses dados para decidir se vai baixar os impostos para importar trigo de terceiros países, a exemplo do que fez em 2008. " Não sei se isso será feito (importação de outros países), mas certamente será levado em consideração pelos ministros (da Agricultura e da Indústria). "
O setor automotivo foi, segundo Ramalho, o que mais contribuiu para a queda de 40% do comércio bilateral este mês. " É o setor que mais tem sofrido com a crise internacional em todo mundo " , afirmou. Argentina acumula um déficit com o Brasil de US$ 500 milhões em autopeças e US$ 177 milhões em automóveis de passeio.

(Janes Rocha | Valor Econômico)

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