O governo argentino decidiu tomar medidas mais sérias para enfrentar o problema da falta de financiamento para o ano que vem. Além de desistir de pagar a dívida de quase US$ 7 bilhões ao Clube de Paris - instituição informal constituída por 19 países desenvolvidos cuja missão é ajudar financeiramente países em dificuldade econômica - com recursos das reservas internacionais, como havia anunciado há cerca de dois meses, para preservar o poder do Banco Central, a administração de Cristina Kirchner decidiu fazer uma recompra massiva de títulos.

A Secretaria de Finanças decidiu, ontem, fazer a recompra amanhã dos bônus Boden de 2012 e 2015 que vencem em 2009, para aliviar os vencimentos do próximo ano.

A equipe econômica vem realizando leilões periódicos para a recompra de papéis atrelados ao crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), emitidos em pesos e em dólares, mas com poucos resultados. No último, há uma semana, ofereceu recomprar cupons até 100 milhões de pesos (R$ 72,3 milhões, aproximadamente), mas conseguiu somente 54 milhões (cerca de R$ 39 milhões). Como são atrelados ao PIB, possuem maior rendimento tendo em vista o crescimento da economia este ano.

A operação tem o objetivo de aliviar o orçamento de 2009. A alternativa pensada pelo governo para resolver a situação com os holdouts (credores de títulos em default que não entraram na reestruturação de 2005) está indo por água abaixo, diante do recrudescimento da crise financeira mundial.

Por outro lado, a decisão de não usar as reservas para pagar o Clube de Paris e optar por suaves prestações, como estuda a equipe econômica, segundo confirmou ontem o ministro do Interior, Florencio Randazzo, vai implicar uma negociação com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Uma negociação com o Clube de Paris para o refinanciamento da dívida obriga um acordo temporário com o FMI, segundo as regras do organismo.

Quando a presidente Cristina Kirchner anunciou o pagamento com as reservas foi justamente para não ter que negociar com o FMI. Mas com o preço da soja em queda livre, a arrecadação fiscal da Argentina fica cada vez mais comprometida, já que os impostos cobrados pelas exportações da oleaginosa são os principais componentes do superávit fiscal do país. Além disso, o objetivo de queimar as reservas para pagar o Clube de Paris e os holdouts era colocar a Argentina de volta nos mercados internacionais, onde o país pretendia captar recursos para honrar os compromissos financeiros do próximo ano.

No entanto, com o aprofundamento da crise internacional dificilmente a Argentina conseguiria captar algo. Neste sentido, a reabertura da troca da dívida e o pagamento ao Clube de Paris foram parar na geladeira, segundo uma fonte da equipe econômica. "Pelo menos, por enquanto, até que o panorama se aclare um pouco mais", disse a fonte.

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