A decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de reduzir em 1 ponto porcentual a taxa Selic, para 12,75% ao ano, surpreendeu o mercado financeiro ontem. Até segunda-feira, a aposta majoritária dos analistas era de um corte de 0,75 ponto.

Segundo pesquisa feita pela Agência Estado no início da semana, das 60 instituições consultadas, apenas oito esperavam uma atitude mais agressiva do Banco Central (BC), com recuo de 1 ponto.

Na avaliação de especialistas, o resultado pode sinalizar que o ciclo de flexibilização vai ser mais rápido dessa vez e não a conta-gotas como ocorreu em 2007. "Acho que teremos uma mudança grande nas críticas em relação à atuação do BC. A instituição demonstrou que, quando necessário, sabe ser mais agressiva", afirmou o economista-chefe do Banco Espírito Santo, Jankiel Santos.

"Mas isso não significa que os diretores do BC vão seguir nesse mesmo ritmo (de 1 ponto) nas próximas reuniões", referindo-se ao fato de a decisão não ter sido unânime. Foram 5 votos a favor de 1 ponto e 3 a favor de 0,75. Para ele, o corte remete a uma Selic de 10,75% ao fim deste ano.

Ex-diretor do BC, o economista José Júlio Senna considerou a decisão correta. "A contração econômica provocada pela crise internacional é forte fora e dentro do Brasil. Imaginava que 0,75 ponto de redução seria razoável, mas 1 ponto é um ajuste importante." Para ele, porém, o Copom errou ao informar na nota que a decisão é resultado de "parte relevante do movimento", como quem manda um recado ao mercado de que não fará cortes muito mais expressivos.

"Num primeiro momento, o mercado até leva a sério o que foi dito. Foi o que aconteceu na reunião do Copom de abril do ano passado, quando se começou o movimento de alta da taxa. A primeira mensagem dava a impressão de que aquele já era um movimento relevante, mas com o tempo não foi o que se viu e o juro continuou a subir." Senna acredita que o Copom faça esse tipo de comunicado com o objetivo de evitar que o mercado jogue o juro muito para baixo, o que pode influenciar a demanda.

Na opinião do economista da Modal Asset, Alexandre Póvoa, o discurso do BC mudou muito drasticamente em 20 dias. Segundo ele, o relatório de inflação da última semana de dezembro trazia uma série de dúvidas do BC que deixava aberta inclusive a possibilidade de não haver redução. "A decisão de ontem passa a sensação de que o BC está enxergando uma queda ainda maior da atividade econômica. Eles têm mais informações que o mercado."

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