Com o início do plantio da safra coincidindo com a fase mais aguda da crise financeira global, o setor agrícola brasileiro está precisando, com urgência, de ao menos R$ 10 bilhões nos próximos dias para garantir a produção em 2009, diz o ministro da Agricultura, Reinhold Stephanes. Esses recursos serão rateados em R$ 5 bilhões para os bancos privados e os outros R$ 5 bilhões para financiar as tradings que operam com o agronegócio.

O governo, segundo Stephanes, está sensível às reivindicações do setor. No entanto, ele reconhece que, se os recursos não forem liberados, há risco de uma quebra da próxima safra, porque "o trator já está no campo". Para o ministro, o preço atual das commodities "ainda remunera" o produtor. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Estado.

Com os preços das commodities em forte queda, qual é o cenário para a agricultura brasileira?

Antes do agravamento da crise havia especulação nos mercados futuros. Com a falta de liquidez, isso se retraiu e houve retirada das posições nesses mercados. Não que a demanda mundial tenha caído, mas os preços voltaram a um patamar intermediário, que ainda remunera a produção, de maneira geral. Mas há problemas de preços em alguns produtos.

Que produtos?

Temos problema com algodão, milho e frango. O café tem recursos próprios, o álcool no mercado interno é muito forte e não há problemas. O arroz está em ordem e os preços continuam bons. O feijão, o boi gordo e o suíno continuam bem. E o leite preocupa, embora o preço tenha se estabilizado nos últimos 30 dias.

Há riscos de queda da demanda com a crise?

Não se vai comer menos. Quando há diminuição de renda, os primeiros itens que são cortados são os bens duráveis, automóveis, geladeiras. As commodities agrícolas ficam mais para uma última opção de corte num cenário de crise. Primeiro, se deixa de consumir o níquel, o ferro...

Em que prazo os mercados devem se equilibrar?

Eu acho que vai haver um período de três ou quatro meses de ajustes. Hoje, os preços das commodities estão melhores. Esse ajuste pode vir em dois, três ou quatro meses. Se mantiver esse nível de crescimento de 1% a 2% na economia mundial e de 2% a 3% nos países em desenvolvimento, continuará havendo demanda para a produção agrícola.

Quais são os problemas hoje para a agricultura no Brasil?

O primeiro é de crédito. O Banco do Brasil conseguiu antecipar R$ 5 bilhões que seriam usados no período de comercialização, e esse dinheiro precisará ser reposto. Para os bancos privados, que estão sem liquidez, nossos cálculos indicam necessidade de mais R$ 5 bilhões, que podem ser liberados pela redução de depósitos compulsórios.

As tradings já informaram ao governo que não terão recursos, porque elas mandaram o que tinham para as matrizes. E aí?

Ou se cobre isso por bancos privados ou se faz um empréstimo de dólares com opção de recompra para essas tradings. Elas propuseram isso. As tradings compravam antes a safra ou forneciam fertilizantes. Essas medidas estão sendo estudadas e seguem na mesma linha do que foi anunciado ontem (anteontem) pelo BC.

Quanto as tradings precisam?

Estimamos que esse setor estava aplicando R$ 4 ou R$ 5 bilhões. Essas medidas precisam ser anunciadas em uma semana ou duas. O setor está precisando de pelo menos R$ 10 bilhões, com urgência. Se eu não conseguir os R$ 10 bilhões, grande parte dos produtores continuará plantando, mas vai diminuir o uso de fertilizantes, de adubos. Tem gente que vai semear sem eles. A produtividade poderá cair. Aí haverá quebra de safra. O cenário ainda não é de quebra de safra, mas sem o dinheiro o crescimento previsto de 5% da produção não vai acontecer.

Qual é a garantia de que esse dinheiro será disponibilizado?

Tudo indica que vamos receber. A liberação de recursos para a rede privada já está praticamente decidida. A discussão está entre R$ 3,6 bilhões ou R$ 5 bilhões para os bancos privados. Quanto às tradings, é que ainda não se tomou uma decisão. O ministro Mantega anotou o pedido e disse que ia estudar a questão.

Como será liberado o dinheiro?

A idéia é que o banco que aplicar um adicional em agricultura terá redução de um porcentual x do compulsório.

O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, está sensível ao problema?

Está. Ele participou da reunião com o presidente Lula em que o assunto foi discutido. A próxima reunião já está marcada para o fim da próxima semana ou começo da outra. Esperamos que as medidas sejam anunciadas antes.

Além do crédito, há outros problemas?

O segundo problema, que não temos solução no curto prazo, é o aumento nos custos de produção devido à alta dos preços dos fertilizantes. Quem comprou já comprou na alta. Isso gera impacto e vai reduzir a renda. O terceiro problema é da comercialização, em seis meses, quando o produto for ao mercado. E, aí, vamos precisar de mais recursos e ter que garantir um preço que cubra o custo de produção. O que é preciso entender é que o governo tem mecanismos e vai atuar, como já estamos atuando no caso do milho, do trigo e do arroz, vendendo os estoques.

A crise neste momento do plantio é menos prejudicial?

Teria sido muito mais prejudicial se acontecesse na época da colheita. Eu conversei com um grande produtor do Paraná, Mato Grosso e sul do Piauí que disse que, como teve duas safras boas e vendeu bem, poderá se autofinanciar. Levamos um pouco essa vantagem, porque saímos de duas safras boas. E tem outro fato: depois que começar a rodar, não pode parar. A terra está lá, a máquina está lá, o insumo, a semente, os equipamentos. Não tem alternativa. Tem de plantar. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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