O chefe do Centro de Estudos do Crescimento Econômico da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Samuel Pessôa, está apreensivo com o enorme grau de incerteza causado pela crise americana. Sempre que a gente acha que é o ápice da crise, um mês depois vem coisa pior, diz.

Ele diz que o momento atual é o "olho do furacão", no qual todos os cenários podem mudar rapidamente.

Com essas ressalvas, Pessôa destacou, em entrevista à Agência Estado, que, no Brasil, "é possível que, de um cenário de excesso de demanda, o País passe a um cenário de excesso de oferta".

Isso se daria por forte redução do crescimento mundial, com queda nas exportações e nos investimentos. Se esse cenário se confirmar, será necessário uma alteração na política monetária por causa da forte queda da inflação, com possibilidade até de deflação. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como fica a política monetária com escassez de crédito, por um lado, e pressão do dólar de outro?

Já estávamos com excesso de demanda, inflação em alta e sinais que ia ficar mais difícil financiar os investimentos com poupança externa. Mas a economia brasileira estava crescendo forte, o que justificava a política de elevação de juros. Nesse mundo, uma piora de cenário externo, que reduz a capacidade de financiar o crescimento com poupança externa, o juro real tem que aumentar.

A economia brasileira terá forte crescimento no ano que vem?

Há uma percepção - que eu compartilho em parte -, muito recente, que pode mudar rapidamente: a impressão que dá é que este problema financeiro está tão grave que vai contaminar pesadamente a economia real mundial. A velocidade de crescimento do mundo vai cair muito. Nesse caso, o risco percebido pelos investidores, inclusive no Brasil, pode aumentar muito. Então, há possibilidade que, para o ano que vem, os projetos de investimento sejam muito reduzidos. Portanto, é possível que, de um cenário de excesso de demanda, a gente vá para um cenário de excesso de oferta.

O senhor acredita que essa inversão vai acontecer?

Seria um excesso de oferta para a política monetária (atual). Mas isso não está claro ainda. Estamos no meio do furacão. De repente, sai o pacote nos EUA, a China continua a crescer forte, as commodities voltam a subir, o câmbio despenca de novo e a gente volta ao cenário anterior. Tudo é possível.

Mas a Formação Bruta de Capital Fixo (investimento) é a parcela mais volátil do PIB. De repente, o investimento despenca, o que significa que a poupança doméstica aumenta muito no ano que vem. Iríamos para um cenário de excesso de oferta e teríamos de baixar os juros antes do que imaginamos. Melhora a situação fiscal. Mas reduz o crescimento e o mercado de trabalho fica menos aquecido.

Como fica a demanda mundial pelas exportações brasileiras?

Os investimentos e a demanda pelos nossos produtos podem cair. Isso contribui para um cenário de excesso de oferta. Mas ainda é muito prematuro para o BC fazer mudança de cenário. Para a próxima decisão do Copom ainda tem um tempo, para ver se tempestade vai passar ou não, se vai arrefecer. Pode não acontecer nada, passar a tormenta e a gente voltar para o cenário anterior, de excesso de demanda.

Mas isso depende da aprovação do pacote nos EUA?

Se não sair nada, a gente vai para uma crise grande. Aí seria difícil um cenário diferente do excesso de oferta, mesmo para uma economia como a brasileira. Este ano foi muito bom para o investimento. Vários investimentos vão maturar no ano que vem. Vai haver uma capacidade instalada maior. Se a demanda refluir muito, haverá problema entre oferta e demanda. Mas até agora temos o problema contrário, de pressão inflacionária.

Pode haver deflação em caso de excesso de oferta?

Pode até ter deflação. Pode começar como redução forte da inflação. Mas a economia está bem preparada. Do ponto de vista dos passivos, por exemplo.

O endividamento líquido vem do capital de risco, não de empréstimo. Capital de risco tem essa coisa legal, o estrangeiro é seu sócio, na saúde e na doença. Quando o país vai bem, a bolsa sobe, ele ganha. Quando vai mal, a bolsa cai, ele perde e o Brasil deve menos. É diferente de quando a gente se endividava só com empréstimo. Quando o País estava mal, aí é que o banqueiro queria cobrar.Outro aspecto é o governo ser credor líquido em dólar. O País piora, o dólar sobe, a dívida pública cai. Com o dólar passando de R$ 1,70 para R$ 1,95 há uma queda real de 14%.

E quais os efeitos negativos da alta do dólar?

O principal efeito é inflacionário. Precisa subir os juros, mas se estivermos indo para um mundo de excesso de oferta, não precisa subir tanto. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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