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O BC já usou e pode voltar a usar as reservas

O Banco Central (BC) já utiliza e, se necessário, continuará recorrendo ao saldo de reservas cambiais do País para neutralizar a restrição de crédito externo aos exportadores, garante ao Estado o presidente do BC, Henrique Meirelles. Ele chama atenção para os leilões de venda de dólar com compromisso de recompra, adotado há duas semanas, e acena com novas atuações do BC.

Agência Estado |

"Podemos atuar novamente, dessa ou de outra formas, quando julgarmos necessário", afirma. Meirelles defende a "serenidade" para evitar "decisões precipitadas"e anuncia que o BC "tomará quaisquer medidas que sejam necessárias para evitar que bancos possam criar risco sistêmico ou uma crise de crédito no país".

Ele considera que o pacote anunciado pelo governo Bush ajuda a "superar a fase aguda da crise", mas alerta para outros desafios, como a capitalização adicional dos bancos, caso necessária. Na avaliação dele, o retorno à normalidade dos mercados "pode demorar alguns trimestres". As perguntas foram enviadas por escrito ao presidente do BC. A seguir, a íntegra da entrevista.

Em que medida as linhas eternas de financiamento das exportações foram reduzidas em decorrência da crise financeira internacional?

Há uma escassez global de liquidez em dólares, causada pela severa crise financeira no Atlântico Norte e o mercado brasileiro vem sendo afetado.

O que o Banco Central poderá fazer para enfrentar o problema? O Banco Central poderá criar linhas especiais para os exportadores, com venda de dólares com compromisso de recompra? O Banco Central poderá utilizar, mesmo que temporariamente, parte das reservas cambiais do País para não deixar que faltem financiamentos para os exportadores?

O Banco Central já está usando parte das reservas cambiais e fazendo leilões de dólares com compromisso de recompra. Podemos atuar novamente, desta ou de outras formas, quando julgarmos necessário. Estamos plenamente cientes das dificuldades do segmento exportador, que é muito importante para a nossa economia. Cabe notar também que a razão pela qual podemos enfrentar a crise atual com serenidade, e disponibilidade de recursos para fazer isso, é porque, mesmo diante de muitas críticas, mantivemos a política de ampliação das reservas internacionais. As empresas brasileiras dizem que já estão sofrendo a escassez de dinheiro aqui dentro, as taxas de juros aumentaram e os prazos dos financiamentos foram reduzidos.

Em que medida as restrições do mercado internacional afetaram o crédito no mercado brasileiro?

Na medida em que as fontes de financiamento externo tornam-se mais escassas aumenta a demanda por crédito no mercado doméstico, o que tende a pressionar taxas e os spreads. Estamos monitorando o que ocorre no mercado de crédito, tanto do ponto de vista macroeconômico quanto prudencial. Mas é preciso manter serenidade sempre, ainda mais em momentos de turbulência, para evitar decisões precipitadas e medidas que podem atrapalhar, ao invés de ajudar.

O que o Banco Central está fazendo a respeito?

A liberação de depósitos compulsórios dos bancos no Banco Central e os leilões de dólares foram medidas tomadas para preservar a economia brasileira dos efeitos desta crise externa. Nossa atuação é no sentido de preservar o bom funcionamento do mercado de crédito para que tanto empresas quanto famílias continuem tendo acesso ao crédito. O Banco Central já adotou duas medidas para dar liquidez ao mercado financeiro interno, com o adiamento da entrada em vigor do recolhimento do depósito compulsório sobre as operações de leasing e com a mudança no recolhimento compulsório sobre depósitos a prazo, anunciada na noite de quinta-feira.

Ao injetar mais dinheiro na economia, para resolver o problema de liquidez, o BC não dificulta o combate à inflação que vem sendo feito por meio da elevação da taxa de juros dos últimos meses? Não são medidas em direções opostas?

Não. As medidas adotadas visam a assegurar que não ocorra concentração exagerada da liquidez no Sistema Financeiro Nacional. A calibragem da política monetária visa a promover a convergência da inflação para a trajetória das metas. Gestão de liquidez e gestão macroeconômica não são a mesma coisa. Além disso, não houve mudança no regime geral de compulsórios, e sim um ajuste à luz dos efeitos do aperto de liquidez internacional. Os grandes bancos brasileiros estão aplicando as suas disponibilidades em títulos públicos, oferecidos pelo Tesouro Nacional ou pelo próprio Banco Central, em vez de emprestar para outros bancos que necessitam de liquidez.

Em vez de reduzir o depósito compulsório, não seria mais razoável que o Banco Central, neste momento, reduza os juros dos títulos que oferece e, dessa forma, force as instituições a continuar emprestando os seus recursos no mercado?

Com a última medida do Banco Central tomada na semana passada, os bancos podem liberar depósitos compulsórios somente para comprar créditos de bancos menores. Portanto, se os bancos não fizerem isso, serão obrigados a deixar esses recursos depositados no BC, o que geraria prejuízo para as instituições. Isso porque as taxas que os bancos recebem sobre os depósitos compulsórios são menores do que as taxas de captação pagas por eles na emissão de CDBs. Os tomadores de decisão das instituições financeiras sabem disso. Além do mais, não há problemas sistêmicos de crédito no Brasil. Os problemas de crédito nos Estados Unidos e na Europa foram a razão da preferência de muitas instituições daquelas regiões por aplicações em títulos públicos federais, independentemente da taxa de juros. Mesmo com taxas de juros baixas, os bancos evitam o risco nos Estados Unidos. A situação no Brasil é muito diferente e o Banco Central está vigilante e tomará quaisquer medidas que sejam necessárias para evitar que bancos possam criar risco sistêmico e qualquer possibilidade de crise de crédito.Além do mais, não custa repetir que não se deve confundir política monetária com gestão de liquidez.

As restrições ao crédito decorrentes da crise financeira terão impacto sobre o nível de atividade da economia brasileira este ano ou no próximo ano? Nesse sentido, a atual retração do crédito terá efeito desinflacionário?

A nossa tarefa, do ponto de vista analítico, é avaliar em que medida restrições de condições de crédito importadas poderiam afetar a trajetória já esperada de desaceleração do crédito e qual seria o efeito potencial sobre a atividade econômica e a inflação, que respondem também a diversos outros fatores.

Se o PIB potencial é superior ao crescimento estimado para o próximo ano, de 3,5%, é errado supor que o BC pode, a partir de agora, considerar encerrada a trajetória de alta da Selic?

Por políticas de boa governança de bancos centrais não antecipamos decisões do Copom nem comentamos opiniões a respeito de suas decisões futuras. A decisão sobre a taxa básica de juros depende fundamentalmente das projeções de inflação e do balanço de riscos associados a essas projeções. Mas levamos em conta o que está ocorrendo no mercado de crédito e seus efeitos sobre o nível de atividade, além de outros efeitos da crise, em nossa análise de conjuntura, assim como levamos em conta uma ampla gama de fatores. É importante lembrar que o cumprimento das metas de inflação nos últimos anos colaborou de forma decisiva para o aumento das taxas de crescimento do PIB. A inflação na meta aumenta o grau de previsibilidade da economia, permitindo que as empresas e cidadãos decidam melhor sobre seus planos de investimento e consumo.

Qual a sua avaliação sobre o impacto das medidas aprovadas pelo Congresso norte americano? Se for bem assimilado pelos mercados internacionais, com qual prazo se poderia trabalhar para a normalidade nos mercados internacionais?

As medidas são sem dúvida um passo importante na direção da solução da crise. Mas sua operacionalização (a compra de ativos pelo Tesouro dos Estados Unidos) pode demorar um certo tempo. Em resumo, a aprovação do pacote deve ajudar os Estados Unidos a superar a fase aguda da crise, mas existem outros desafios, como a recapitalização adicional dos bancos, caso ela seja necessária. O retorno à normalidade pode demorar alguns trimestres. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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