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SÃO PAULO (Reuters) - O Brasil e outras potências comerciais estão enxergando uma janela de oportunidade para retomar as negociações da Rodada de Doha da OMC em setembro, disse na terça-feira o principal negociador do país em Genebra. Comparando a longa rodada de sete anos a uma maratona, Roberto Azevedo disse que ela ainda não chegou a seu ponto final.

'Como negociador, eu me sinto como se estivesse correndo uma maratona e ainda não se definiu qual é o percurso. Deram a partida e você sai correndo, agora você não sabe onde está a linha de chegada', afirmou o embaixador a jornalistas.

'A Rodada de Doha só morre quando o maratonista decidir sentar do lado da estrada e disser: entreguei os pontos.

Enquanto estiver correndo, tenho esperança que o sinal de chegada apareça' disse.

Líderes políticos têm mantido contato nas últimas semanas com a finalidade de retomar as conversas, e países estão fazendo sua 'lição de casa', que consta de dois pontos principais, segundo o embaixador.

O primeiro deles é analisar se há solução para o problema sobre salvaguardas especiais para países em desenvolvimento (SSMs) --ponto que inviabilizou o acordo em julho.

O segundo é, se houver saída para essa questão, existem outros temas que também poderiam gerar impasse? Segundo ele, até agora, nenhum outro ponto além das salvaguardas foi identificado.

'Esse é o objetivo dessas conversas, ver quais as respostas para ver se vale a pena fazer mais um esforço nas próximas semanas', disse ele após se encontrar com empresários na Fiesp.

Segundo Azevedo, há uma percepção generalizada no governo de que boa parte do êxito da rodada agora depende de empenho político.

Seria necessário a criação de um mecanismo de salvaguardas negociado que atenda tanto a preocupações dos importadores quanto dos exportadores.

'Essas conversas que o presidente (Luiz Inácio) Lula (da Silva) tem mantido são essenciais porque se não houver entendimento nas mais altas instâncias que a rodada deve ser perseguida, essa visão não vai permear até os negociadores', disse.

Azevedo afirmou que ele próprio começou a fazer contatos com negociadores na semana passada e que também o Itamaraty, outros ministérios e o setor privado estão conversando para fazer um diagnóstico.

'Problemas políticos impediram um acordo naquele momento, sobre aquele tema. A minha impressão era de que se tivesse mais quatro ou cinco dias em Genebra, resolveríamos este problema', afirmou.

Azevedo citou que o Brasil continua negociando acordos bilaterais, por exemplo, com África do Sul, países do Golfo e Índia, mas temas considerados cruciais pelo Brasil como subsídios ficam fora destes pactos.

Além disso, por um mandato interno, a União Européia não está autorizada a negociar um acordo bilateral com o Mercosul antes da conclusão da rodada multilateral.

Em entrevista ao jornal francês Le Monde desta terça-feira, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, disse que o presidente Lula 'tem a sensação de que ainda há uma pequena chance de concluir essas negociações'.

'Se retomarmos as negociações rapidamente, provavelmente continuaremos de onde paramos... Mas se a retomada ocorrer em dois ou três anos, eu temo que os reflexos de novos cálculos e protecionismo terão tempo de colocar em questão todos os acordos aos quais chegamos', disse Amorim.

(Reportagem de Inaê Riveras)

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