Começam a surgir sinais de que o ar puro dos Alpes suíços não está imune a uma contaminação generalizada. Nos últimos dias, uma situação jamais vista na Suíça tomou conta do país.

Os tradicionais e centenários bancos estão enfrentando uma onda de telefonemas de clientes que querem saber se devem ou não retirar suas economias das instituições. Antes mesmo do estouro da crise, o gigante UBS já havia perdido US$ 12 bilhões diante do fechamento de contas de clientes desconfiados. Dos bancos regionais, já foram retirados US$ 30 bilhões.

"Já passamos para a fase de crise emocional", disse, em entrevista exclusiva ao Estado, o principal banqueiro suíço, Ivan Pictet. Representante máximo da imagem que prevalecia do país, de total solidez financeira, ele é a oitava geração da família a liderar a instituição Pictet e Cia, o maior banco suíço de gestão de fortunas, um dos maiores do mundo. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Estamos vendo um número cada vez maior de suíços se questionando se devem ou não retirar seu dinheiro dos bancos. É um cenário novo no país?

Sou um capitalista. Mas a crise já não tem relação apenas com os fundamentos dos bancos e se transformou numa crise emocional e de confiança. A confiança é central no sistema financeiro e, até que isso seja retomado, não adianta continuar colocando dinheiro e salvando bancos.

Como o mundo chegou a esse ponto? Os banqueiros não têm parte da culpa?

A situação é caótica e insisto que o problema agora é de confiança. Os sinais dos últimos dias reforçaram a falta de confiança dos clientes e mesmo de bancos. O Fortis (banco que foi salvo pelos governos de Luxemburgo, Bélgica e Holanda) estava bem. Mas sofreu uma corrida por parte de seus clientes, que não confiaram no sistema, e acabou como acabou.

Como a crise chegou até a Suíça, que passava a idéia de ter um sistema à prova de qualquer turbulência?

O sistema bancário hoje é o mais globalizado de toda a história. A contaminação de uma situação em um país ou região dificilmente pode ser evitada quando há uma crise como a que vemos, mesmo na Suíça. O problema é que isso está sendo agravado diante do comportamento dos bancos. Não adianta os bancos deixarem de emprestar dinheiro. Bancos não confiam nem nos demais bancos. Essa é a pior mensagem que o mundo precisa receber. Na minha opinião, quando os bancos mandam esses recados à sociedade, estão cometendo suicídio e é isso que está ocorrendo. Digo claramente: estamos cometendo um suicídio coletivo.

Um pacote de resgate nos Estados Unidos será suficiente para solucionar a crise?

É um primeiro passo. Os países da OCDE (Organização para Coordenação e Desenvolvimento Econômico) precisam urgentemente se unir em torno de um projeto para dar resposta à crise. Uma coisa é certa: estamos vivendo um contágio psicológico. É também uma crise emocional e temos que começar a reverter isso. Os governos precisam dar um recado inequívoco às populações de que suas economias estarão garantidas. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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