Depois de vários meses de menosprezo à crise externa, o governo brasileiro tomou um choque de realidade na semana passada e começou a traçar um plano para blindar a economia do contágio do efeito Jack Daniels.

Esse é o apelido que os técnicos da equipe econômica já deram à crise dos EUA, em alusão à marca de uísque preferida dos americanos - por analogia a termos como "efeito tequila" usado em referência à crise mexicana, em 1995, e "efeito Orloff" adotado na crise russa, em 1998.

Nas duas crises anteriores, o Brasil foi atingido porque tinha contas externas mais frágeis. Hoje o País dispõe de mais de US$ 200 bilhões de reservas cambiais e, por isso, vinha navegando com certa tranqüilidade pela turbulência. Mas os eventos recentes mostram que o País não está definitivamente imune.

"O Brasil não está condenado a acompanhar a recessão, mas precisa olhar com cuidado para sua balança de pagamentos e agir anticiclicamente com uma política econômica adequada", opina o economista Luiz Gonzaga Belluzzo. Apesar de ser um dos principais conselheiros do presidente Lula em assuntos econômicos, Belluzzo diz que ainda não conversou com ele sobre a crise e que a situação dos "policy makers" brasileiros é delicadíssima. "O BC tem de agir com conseqüência, usando um conjunto de instrumentos que não está habituado a usar", afirma.

Nos gabinetes do Ministério da Fazenda, os técnicos ainda estão tentando dimensionar a crise e seus efeitos sobre o Brasil. "A velocidade da crise é muito maior do que a velocidade das informações", diz um economista do governo. Uma das apostas do governo Lula é que a dimensão do mercado interno brasileiro ajude a amenizar os efeitos da crise externa sobre nossa economia. Apesar das exportações estarem crescendo, elas não representam mais do que 13% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro e, nos últimos meses, vêm sendo anuladas pelo crescimento mais veloz das importações.

Na prática, a maior parte da produção brasileira ainda é canalizada para o mercado interno, seja para investimentos, seja para consumo. E, num momento em que a economia global desacelera, esse relativo fechamento pode ser vantajoso. A economia argentina, por exemplo, está sendo menos atingida pela crise do que a brasileira, já que o país não vinha recebendo capital externo como o Brasil. O mesmo ocorre com a Venezuela, sob comando de Hugo Chávez.

O problema é que, mesmo não dependendo tanto das exportações, o Brasil pode sofrer com sua redução e com o encarecimento das importações, por causa do dólar mais alto. A desvalorização do real também pode ter efeitos inflacionários que ainda são imprevisíveis. Mas o grande fantasma que hoje assombra a economia brasileira, como no resto do mundo, é o tamanho da crise financeira. O Brasil pode ter milhões de consumidores e uma enorme indústria, mas nada disso funciona normalmente se o sistema bancário decide obstruir as vias de crédito por medo da crise. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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