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Crise deve produzir um novo sistema

Estamos diante de interesses gigantescos e a necessidade de uma mudança de doutrina se impõe, mesmo não vendo chances de que isso ocorra rapidamente, disse o ex-primeiro-ministro francês Michel Rocard ao Estado, sobre a crise financeira atual. O que está bem claro, na sua opinião, é que a comunidade científica da economia condena o ultraliberalismo, não o liberalismo.

Agência Estado |

"Os que defendem o liberalismo respeitam a liberdade no contexto das regras. O ultraliberalismo não quer mais saber de regras. E, com isso, temos assistido a uma forte pressão sobre a remuneração dos presidentes dos bancos, o imoralismo dos dirigentes bancários, de empresas, etc." A seguir, os principais trechos da entrevista.

Quais as origens e as conseqüências da crise inicialmente imobiliária, hoje financeira e mundial?

Há mais de dez anos, os banqueiros especialistas do setor imobiliário nos EUA chegaram à conclusão e indagaram por que nós limitamos o campo de nossos créditos, gastando muito dinheiro em verificar a capacidade de reembolso de seus clientes. Afinal, nossa riqueza não será garantida pelo pagamento de nossos créditos, mas pelo valor das casas construídas. graças a nossos empréstimos. Se um credor não paga, poderemos expropriá-lo. Quando se diz uma coisa dessa, cessamos de considerar que o cliente é um ser humano. Passamos a uma fase de massacre social. Tratando-se de um ser humano é um comportamento escandaloso. Essa é a origem. Do lado da redução geral do crescimento, o problema é outro. Há 25 e 30 anos, a pressão dos acionistas sobre o aparelho produtivo aumentou e em todos os países desenvolvidos. Apesar de não conhecer o problema do Brasil, a economia brasileira não se encontra ainda no nível da dos países europeus desenvolvidos.

Quem vai pagar essa conta?

Acho que os que cometeram os erros deverão pagar, mas não apenas eles, os banqueiros. Já compreendemos que os contribuintes vão pagar uma grande parte. Isso não deixa de ser uma filosofia interessante, que fará muita gente refletir. Não é possível que só os banqueiros que erraram deverão pagar. Na minha opinião, essa não é a missão principal. O tratamento da crise não deve ser apenas uma cura, mas sim a construção de um novo sistema. É claro que a fragilidade dos controles do sistema e de sua regulação geral é uma das causas da crise.

O sr. considera justo que essa crise do capitalismo seja paga pelos contribuintes?

Trata-se uma crise de irresponsabilidade bancária. Não vejo como evitar que o Estado pague uma parte substancial, pois os bancos encontram-se em estado de falência. O problema não é salvar os bancos, mesmo se eles oferecem empregos, pois existem outros bancos que andam bem praticando suas atividades normais. Essa crise é especial, pois de 1945 a 1980 não tivemos nenhuma crise financeira internacional, mas apenas crises parciais, atingindo esse ou aquele banco. Se retomo é porque esse é um ponto essencial da crise. Entre 1945 e 1980, vivemos no capitalismo e jamais tivemos crise financeira geral. Só falências locais, imediatamente contornadas. Foi a partir de 1945, com a desregulamentação (palavra da moda), que nós começamos a passar por crises financeiras que contaminam todos os vizinhos e não sabemos como tratá-las. São crises regionais, que ocorrem a cada cinco anos. Três dessas crises ocorreram na América Latina, a começar pelo Brasil, mas também outras duas no México e Argentina. Depois a crise russa, a grande crise asiática de 1997 e a crise européia, a da libra esterlina, da lira italiana e da peseta espanhola, que permaneceram fora do sistema monetário europeu, e agora essa crise. A diferença entre a crise atual e as outras é que em todas as demais tínhamos uma crise técnica do sistema, uma espécie de desorganização do sistema.

Qual a diferença da crise atual?

A crise atual é diferente porque se trata de imoralidade do sistema bancário. Não se trata de uma contradição do sistema, mas o fato de que os banqueiros que fazem do crédito hipotecário americano começaram a emprestar sem precaução e não mais se importar em verificar a capacidade de pagamento dos clientes, só pretendendo receber as comissões dos créditos. Isso não é honesto. Essa imoralidade atingiu o equilíbrio bancário e provocou uma nova crise. Essa primeira crise esteve limitada aos bancos americanos. Em vez de posicionar os gastos e pedir às autoridades para investigarem onde estava o problema, eles esconderam o risco misturando os créditos podres com outros créditos mais válidos. Foi aí que infestaram o mundo inteiro de créditos, em grande parte menos compatíveis com o resultado: "Nenhum banco sabe mais ou menos onde se encontra ou até que ponto é ou não vulnerável, além de não se emprestar mais entre bancos". A crise veio por aí. Tomada de risco cínica e excessiva.

Qual sua característica principal?

O que há de interessante é que não se trata de um efeito de sistema, uma contradição, mas o fato de que a imoralidade atingiu um nível onde a tomada de risco, cínica e excessiva, pode quebrar o sistema.

Com essa crise e suas repercussões, até que ponto não se estaria voltando a Keynes?

Na minha opinião, trata-se de outra coisa. Isso porque a estrita verdade dessa crise é que há necessidade de voltar a uma certa regulamentação, a prisão de certos banqueiros e aceitação de créditos sobre produtos derivados, e mesmo a convalescença de créditos hipotecários, etc. O que me choca é que essa crise bancária e financeira reencontra economias enfraquecidas, fragilizadas. Se tivéssemos nos EUA, Europa e Japão 5% de crescimento anual, tudo se passaria muito bem. Nós estamos a apenas 2% de crescimento e os EUA e alguns países da Europa, Itália e Espanha, dão impressão de que estão à beira da recessão. O Japão permanece estagnado. Todos os países europeus estão sendo atingidos, mas antes havia pleno emprego, de 1945 a 1973. Agora, 25% da nossa população se encontra em trabalho precário (15%) ou no desemprego, ou mesmo desconectado do mercado de trabalho. Na verdade, foi tudo isso que reduziu a demanda, diminuiu o crescimento e está dando à nossa economia uma extrema fraqueza que a fragiliza para resistir à crise financeira. O raciocínio que desenvolvo não é unânime e existem algumas duvidas. E é aí que mostramos não ser mais keynesianos. O resultado é o abandono de Keynes.

Os bancos teriam um papel em tudo isso, mesmo sendo os principais responsáveis?

Essa política foi seguida pela Europa após a guerra. Nossa reconstrução foi feita com essa política. Minha tese é que a crise bancária atinge as economias já doentes e só voltaremos a um bom estado de saúde se colocarmos em prática as duas políticas. É preciso solucionar a crise bancária. Temos necessidade dos bancos para ajudar na retomada econômica, mas é preciso saber por que não sabemos mais promover o crescimento num país desenvolvido.

O sr. falou dos EUA, da Europa, do Japão, mas não citou o papel que poderá ser desenvolvido pelos países emergentes, do tipo Brasil, China e Índia. Por quê?

A rapidez de seu crescimento poderá ajudar o nosso. Esses países continuam a ser importadores de equipamentos e também de bens de consumo, pois a China consome muito.

Alguns economistas afirmam que a fase aguda da crise já passou, mas outros não. O economista Jacques Attalli, ex-assessor de François Mitterrand, considera que os bancos europeus, inclusive os franceses, poderão ainda ser atingidos. O que pensa disso?

Penso que ele tem razão, mas o que me parece importante é que nos faltam instrumentos de medição. Trata-se de analises, prognósticos, mas todos nós podemos nos enganar. Não estamos seguros de nada. Essa é uma das razões de um certo pessimismo.Existe uma avaliação da crise imobiliária americana e da necessidade de US$ 700 bilhões a US$ 1 trilhão, mais ou menos. Se ficarmos nisso, essa soma enorme já daria um limite ao aprofundamento da crise. Meu sentimento pessoal é de que não pode ultrapassar três ou quatro vezes esse total.

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