O economista Luiz Gonzaga Belluzzo, conselheiro do presidente Lula, defende maior atuação do Banco Central para evitar que a rápida diminuição do crédito contamine a economia. Se esse processo de contração avança muito, fica difícil reverter, diz.

Leia trechos da entrevista ao Estado.

O impacto da crise já aparece no Brasil por meio da redução do crédito e dificuldade dos bancos médios. Como evitar uma contaminação maior?

O BC precisa trabalhar para desobstruir esses canais. E isso tem de ser rápido porque, na medida em que se vai consolidando o ciclo negativo do crédito, a contração da liquidez é muito rápida, bate logo no ritmo de atividade das empresas e o crescimento recua. Neste ano, o crescimento está dado. Mas não podemos ficar olhando pelo retrovisor, tem de olhar o que está ocorrendo na frente. Quando começa esse processo de contração, avança muito e depois fica difícil reverter. Tem de ser tempestivo e no volume suficiente. Em geral, ocorre o que se chama de too little and too late (muito pouco e tarde demais). Foi o que o governo americano fez.

Não há risco de os bancos segurarem demais o crédito?

Em geral, as mudanças de opinião são muito bruscas. Os bancos contraem o crédito, os agentes econômicos saem de posições mais arriscadas e procuram posições mais liquidas. E todo o sistema fica em busca da liquidez. Aí ninguém consegue. Hoje você tem uma situação de corrida para a liquidez. Como a liquidez é um fenômeno sistêmico, depende da interação entre os agentes, em que um está disposto a comprar o ativo do outro. Mas quando você corre para um ativo final e deixa de emprestar é um sinal muito ruim, indica perigo. Quando há a corrida para a liquidez, a situação da economia real fica muito difícil.

Apesar do pacote americano, o mercado continua em pânico. O que é preciso fazer?

O pacote deu um sinal que não é muito adequado. Eles deveriam capitalizar os bancos, separar a tralha boa da ruim e tentar reanimar o crédito, que teve uma rápida contração, se que está espalhando pelo mundo. O centro da tormenta é o sistema de crédito, que não se move. O pacote não ataca isso. Na prática, tem de haver um certo controle do Estado sobre o crédito. Isso foi feito na Suécia em 1992; no Chile em 1982; e na Islândia agora. O governo americano continua agindo como se fosse uma crise só de liquidez, mas não é. É de insolvência. Além disso, o pacote não resolve a situação dos devedores finais, aqueles que têm uma avalanche de dívida. O que fazer com as famílias que devem 140% da renda disponível ou 100% do PIB? Elas também vão começar o processo de desalavancagem. O pacote não vai ao âmago da questão. Ficou na superfície.

Por que não se fez um pacote mais completo?

Primeiro, porque houve uma avaliação um pouco otimista da seriedade da crise. Isso acontece quando há má avaliação. Segundo, porque há obstáculos de natureza político-ideológico dentro do Congresso. Muita gente disse que a rejeição (na primeira votação) do pacote representava uma reafirmação das instituições da democracia sobre os mercados. Isso é uma ilusão. Produziu-se um pacote que, na visão das pessoas que têm o mínimo de bom senso, será ineficaz.

Será preciso um novo pacote?

O diálogo entre as instituições americanas não vai terminar com esse pacote. Os americanos terão de caminhar na direção de minimizar os efeitos da crise na economia real. Os números de trabalho e produção industrial estão muito ruins. Se o desemprego aumenta, até os empregados ficam mais cautelosos e reduzem gastos.

Já é possível saber a dimensão dos prejuízos do subprime?

Não. É difícil quantificar porque não se sabe qual a situação do balanço dos bancos. Por isso, é importante que se faça um due diligence em cima dos bancos para saber quem tá melhor e quem tá pior e, assim, conseguir recuperá-los mais rapidamente. Só o tempo dirá se o governo vai aumentar sua capacidade de administrar essa crise. Ele terá de ser mais incisivo na intervenção.

Como o sr. vê o sistema financeiro quando a crise passar?

Vai ser uma briga brava. Wall Street e seus congêneres da Europa vão resistir a mais regulação no sistema bancário. Vai ser uma disputa política importante, realizada no próximo governo, dependendo de quem seja eleito. Porque o McCain tem as impressões digitais em todas as leis malfeitas que foram aprovadas.

Como se chegou a essa situação? Quem são os culpados?

As pessoas não conseguem se dar conta de que os envolvidos no conjunto da obra foram muitos. Houve um certo consenso, nas décadas de 70 e 80, de que era preciso desobstruir o funcionamento dos mercados, que eles eram eficientes, que tinham capacidade de se auto-ajustar. O que levou ao descuido, ao exagero, à ignorância. O Greenspan (ex-presidente do Fed, banco central americano) é apenas produto dessa situação. Me lembro bem depois da crise do (fundo hedge) LTCM (Long Term Capital Management), em 1998, que muitas pessoas diziam que aquilo era só o primeiro sinal e, se deixasse o sistema continuar a operar daquele jeito, a coisa ia se multiplicar. Na verdade, o que Greenspan fez foi passar a mão na cabeça de Wall Street e aprontou um pacote de socorro. Depois da bolha da tecnologia, ele também deu liquidez ao mercado. E tudo funcionava bem porque a inflação estava baixa. Os investidores saíram à caça de ativos mais rentáveis e arriscados. Quem tinha o mínimo de juízo sabia o que ia acontecer. É claro que o desfecho não seria agradável.

Agora tudo terá de mudar?

Sim. Mas a mudança será muito discutida, vai haver resistência, controvérsia. Não será como consertar o motor de um carro que parou de funcionar. Mas não esperem soluções imediatas nem claras. Vai ser tudo meio no tato. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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