Competir em vez de combater Por Alexandre Matias São Paulo, 04 (AE) - O sucesso do iTunes e da Apple no mercado de música digital veio do fato das gravadoras não terem assumido a competição contra a pirataria digital, na época do Napster, preferindo processar seu próprio público. Sem a competição formal, as majors abriram espaço para a entrada de um executivo de outra indústria para ser bem sucedido num mercado que era dominado por elas.

Esse é apenas um entre as dezenas de exemplos que o jornalista Matt Mason lista em seu livro "The Pirate’s Dilemma" (Free Press, importado). Analisando a questão da pirataria do ponto de vista da cultura, Matt sugere que a saída para as empresas não perderem para a pirataria é que elas assumam a concorrência e, em vez de tentar processar os piratas, mostrem para seu público que pode oferecer algo melhor.

Para não fugir à sua própria linha de raciocínio, Mason colocou o livro para download no site thepiratesdilemma.com. Em entrevista, o jornalista fala sobre o livro e sobre o cenário descrito nele.


Como surgiu a ideia do livro?
MASON - Escrevi sobre música durante anos e sempre me interessei em como a cultura funciona como um experimento social que traduz como as pessoas se sentem e como, através da cultura, elas se juntam e tentam fazer com que as coisas funcionem não necessariamente de uma forma já estabelecida - e como isso pode dar vazão a boas ideias. Assim, o movimento punk fez isso com a ideia do consumidor que também se vê como um produtor. Não que isso não existisse antes do punk, mas foi o punk quem primeiro levou esse conceito para o holofote, seguido do hip hop e, mais tarde, pela web - e agora isso é algo que todos conseguem compreender. O mundo ultrapassou o conceito de transmissão tradicional (broadcasting) e abraçou todas as formas de comunicação e compartilhamento de informação e conteúdo - e eu quis observar o lado cultural dessa equação.

E qual é a principal contribuição da internet neste cenário?
MASON - Acho que os pais da internet serão lembrados da mesma forma que hoje lembramos dos filósofos clássicos. Não estou falando em troca de MP3, mas de uma mudança que vem reorganizar a sociedade. Estamos vendo, em diferentes áreas, mudanças em estruturas de poder que deixam de ser baseadas no modelo em que um emissor fala para muitos receptores e estão indo para um modelo em que todos conversam com todos - todo mundo hoje pode transmitir informação para todo mundo ou só para algumas pessoas. Mas o principal valor da pirataria é que as pessoas podem copiar, legitimar algo novo e criar novos modelos de negócio. Foi assim que Hollywood começou, foi assim que o mercado de música começou e acho que iremos ver novos modelos de negócios surgindo daí.

Piratas ensinaram algo ao mercado?
MASON - Certamente. Vide que muitos estúdios e empresas de mídia estão contratando consultores para saber como lidar com isso e aos poucos estão se livrando da ideia de processar os próprios consumidores, pois se tornou improdutivo. As gravadoras provavelmente nunca irão se livrar da péssima reputação que ganharam ao fazer isso. Antes as pessoas eram apaixonadas pelas gravadoras - pela Motown, pela Atlantic - e hoje você não vê nenhum jovem apaixonado pela SonyBMG, elas viraram o inimigo. E isso não vai mudar nas próximas gerações, mesmo se a indústria mudar da noite pro dia.

Com o tiro no próprio pé dado pelas gravadoras, ao processar seus clientes, outros ramos da indústria aprenderam algo?
MASON - Com certeza. Veja a série Lost. Seus produtores são contra a pirataria, mas eles em vez de brigar contra os piratas, resolveram competir com eles. Assim, se você vive nos EUA, você pode assistir à série de graça no site da emissora. Esse é um bom argumento contra a pirataria - em vez de tentar reprimi-la, tente competir com ela.

A Disney/ABC (produtora de Lost) entendeu isso e colocou em prática. Fiquei surpreso com a decisão, porque é uma empresa com dezenas de milhares de funcionários, que mesmo assim colocou isso em prática. Isso é uma decisão drástica a ser tomada numa empresa tão grande. Se você é o executivo-chefe de uma empresa de mídia, uma decisão dessas pode fazer com que o preço da empresa caia.

Essa aproximação entre empresas e piratas pode fazer com que a distinção entre o underground e mainstream desapareça?
MASON - Acho que não. Escrevo para um site chamado Free.com e foi da comunidade de troca de arquivos via internet que eu recebi as críticas mais sérias a meu livro. Porque meu livro de uma certa forma tenta legitimar a pirataria e as pessoas que agem como piratas se veem como o underground. E aí aparece um cara dizendo que nós precisamos tornar isso mainstream para que a indústria geradora de conteúdo possa sobreviver (rindo)... Então esse cara é o inimigo.

É como perguntar para um garoto punk nos anos 70 como é que se faz para vender camisetas dos Ramones em todos os shopping centers dos EUA. Eu entendo e respeito a posição dessas pessoas, mas o ponto é que, hoje em dia, as camisetas dos Ramones estão à venda em todos os shopping centers dos EUA. A pirataria vai com certeza se tornar legal. É assim que essas coisas funcionam, o underground sugere algo novo, o mainstream vem e legitima. Sempre foi assim.

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