Conhecido por integrar o pequeno grupo de economistas de renome mundial que vêm alertando há anos para os desequilíbrios da economia global, Kenneth Rogoff, professor de Harvard, prevê que o governo americano, aos trancos e barrancos, terá da aprovar uma série de medidas radicais para conter a atual crise financeira, piorada pela rejeição pelo Congresso do pacote de saneamento bancário negociado no fim de semana. Ele acha que o Congresso não vai aprovar de uma vez só tudo o que tem de ser feito, lista na qual inclui a extensão da garantia de depósitos nos Estados Unidos muito além do atual limite de US$ 100 mil.

Para Rogoff, ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), o custo para o contribuinte americano das medidas para enfrentar a crise serão de US$ 1 trilhão para cima. Ele falou rapidamente por telefone com o Estado ontem, do seu escritório em Harvard. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O que vem pela frente, depois que o Congresso rejeitou o plano de saneamento financeiro do sistema bancário do secretário do Tesouro, Henry Paulson?

Bem, eu não acho que o Congresso vai aprovar de uma vez só tudo o que terá de ser feito. O padrão de atuação dos governos nesse tipo de crise é mesmo aos trancos e barrancos. Medidas muito mais radicais terão de ser tomadas, e cheques imensos terão de ser assinados. O custo disso será de US$ 1 trilhão ou mais.

A que tipo de medida radical o sr. se refere?

Os bancos mais debilitados terão de ser fechados, e é preciso urgentemente fazer alguma coisa em relação ao seguro de depósitos.

Mas os Estados Unidos já não têm um sistema de seguro de depósitos para os bancos comerciais?

O problema é que o seguro cobre apenas pessoas que tenham depósitos de até US$ 100 mil. Isso pode parecer justo, mas o problema é que os ricos têm muito dinheiro nos bancos, e estão apavorados com a possibilidade de quebra. Então pode haver uma corrida bancária que não tenha origem na classe média. Imagine alguém com US$ 20 milhões no Morgan Stanley. E há também os fundos de hedge (fundo de investimentos especulativos), que tem grandes volumes de reservas em caixa.

O que o sr. achou do plano de Paulson?

Além de representar um grande subsídio ao setor financeiro, havia, no mundo acadêmico, muito ceticismo em relação a esse plano, que parecia depender de uma engenharia financeira extraordinariamente complexa, que poderia facilmente ter resultados opostos aos pretendidos.

O sr. poderia explicar?

A principal questão é quanto se vai pagar por títulos complexos baseados em hipotecas que no momento não têm nenhum preço. A idéia do Tesouro era comprar esses títulos e estimular a sua negociação em mercado. O problema é que são títulos tão complexos, e tão diferentes uns dos outros, que não está claro como se poderia criar um mercado para eles. Mesmo como um mecanismo de leilão, aquele objetivo é muito difícil, pois cada título é diferente. Então, o Tesouro teria de ser tão inteligente que conseguiria fazer algo que o mercado não conseguia, e havia muito ceticismo quanto a isso.

E o que o sr. achou das modificações introduzidas depois do acordo no Congresso, que não foram suficientes para que o projeto fosse aprovado?

A proposta final introduziu uma série de correções que minimizaram os problemas do plano inicial, mas ao mesmo tempo ela de certa forma neutralizou os impactos do plano.

Por quê?

Porque foram colocadas tantas condições que provavelmente só os bancos em pior estado iriam aderir - justamente aqueles que deveriam desaparecer. Eu me refiro a coisa como a aquisição por parte do governo de ações dos bancos que dariam ganhos caso houvesse lucros, limites ao pagamento dos executivos e a cláusula de que, depois de cinco anos, as instituições teriam que devolver ao governo tudo o que por acaso tivessem lucrado.

Por que o mercado reagiu com tanto desespero à não aprovação do plano, se ele tinha tantas falhas?

A minha impressão é de que não foi a perda desse plano em si mesmo, mas sim o fato de que os políticos demonstram relutância em fazer qualquer coisa para aplacar a crise.

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